Uma das indústrias mais tradicionais do Brasil acaba de atravessar uma fronteira simbólica. Pela primeira vez desde pelo menos 1997, o país importou num mês mais calçado do que exportou.

Em julho, segundo dados divulgados há dias, o Brasil comprou ao exterior 60 milhões de euros em sapatos, chinelos e sandálias, enquanto as exportações ficaram nos 56milhões.

Entre janeiro e julho, as importações atingiram 350 milhões de dólares e aproximadamente 30 milhões de pares, aumentando 10 por cento em valor face ao mesmo período de 2025, sendo que as receitas das exportações recuaram 18 por cento.

A indústria aponta duas causas principais: perda de vendas nos Estados Unidos e Argentina e aumento da entrada de produtos mais baratos provenientes da China, Vietname e Indonésia.

Recorde-se que os Estados Unidos representam cerca de um quinto das receitas externas do calçado brasileiro, mas as vendas para aquele mercado caíram 25 por cento, sendo que para a Argentina, a quebra chegou mesmo aos 58%.

A associação do setor reclama novas barreiras à entrada de produtos asiáticos e argumenta que as importações não resultam de um mercado em expansão, mas da substituição da produção nacional.

O fenómeno é revelador de uma transformação que também preocupa outras economias ocidentais: a capacidade da indústria asiática de conquistar rapidamente setores onde países como Brasil, Portugal, Itália ou Espanha possuíam forte tradição produtiva.