A CP decidiu travar a parceria com o Conta Lá e não avançar com a utilização dos conteúdos do projeto televisivo nos seus comboios, apesar de existir já um protocolo assinado entre as partes. Na origem da decisão terá estado a notícia ontem publicada pelo 24Horas, bem  como as  dúvidas sobre a capacidade do Conta Lá para assegurar a produção e a veiculação dos conteúdos acordados, mas também o agravamento da situação financeira e laboral da empresa e as notícias, entretanto tornadas públicas sobre a idoneidades de Maurício Ribeiro, um dos responsáveis pelo projeto, juntamente com Sérgio Figueiredo.

Fontes conhecedoras do processo dizem ao 24Horas que a administração da CP considerou não estarem reunidas condições objetivas para manter o acordo. “Era insustentável estabelecer uma parceria com eles, completamente fora de hipótese”, afirmou uma dessas fontes.

O ‘lobby’ de Paredes e o ‘desmentido’ atabalhoado

A notícia do 24Horas causou alguma agitação na empresa, tendo levado mesmo o gabinete de comunicação da CP, dirigido por Sónia Rodrigues, a emitir um comunicado em que, de forma atabalhoada, tenta desmentir o que é indesmentível, ou seja: a empresa dispensou os serviços do Canal N, a rede de televisões regionais que há anos assegurava o serviço, preparava-se agora para entregar ao Conta Lá a produção e veiculação de conteúdos televisivos no circuito interno dos comboios da CP, como aliás estava previsto no protocolo assinado há alguns meses entre aquela empresa pública e a empresa de Maurício Ribeiro.

A decisão da CP, para muitos tomada a contragosto de alguns ‘lobbys’ que mantém alguma influência na empresa, nomeadamente o chamado ‘lobby de Paredes’, onde pontifica o deputado socialista José Carlos Barbosa, representa mais um golpe num projeto que, em pouco mais de um ano, terá acumulado dívidas superiores a cinco milhões de euros. Entre os credores encontram-se entidades públicas, nomeadamente a Segurança Social e a Autoridade Tributária.

Também no plano laboral a situação do Conta Lá se degradou. Pelo quarto mês consecutivo continuam por pagar vários salários e, nos últimos dias, jornalistas ainda vinculados ao projeto receberam propostas de cessação dos contratos, com a promessa de pagamento das verbas em dívida ao longo de cerca de 18 meses, uma solução que internamente, é interpretada por alguns trabalhadores como uma tentativa de concretizar um “despedimento coletivo encapotado”.

A decisão da CP acrescenta agora uma nova dimensão à crise do Conta Lá: já não está apenas em causa a capacidade de pagar salários e credores, mas também a confiança de parceiros institucionais num projeto cuja sustentabilidade é cada vez mais questionada.