A MEO, a NOS e a Vodafone retiraram o Conta Lá das suas grelhas de televisão dias depois de o 24Horas ter questionado os três operadores sobre as razões pelas quais continuavam a disponibilizar um canal reduzido a um carrossel de repetições.
O projeto televisivo falhado de Maurício Ribeiro e Sérgio Figueiredo, mergulhado numa grave crise financeira, ocupava a posição 15 na MEO, 123 na NOS e 999 na Vodafone.
Dos quatro serviços de programas autorizados pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) — Norte, Centro, Sul e Rural —, apenas o Conta Lá Norte continuava a emitir. E mesmo esse se limitava a repetir programas antigos, sem produção original nem serviços noticiosos, em desconformidade com o projeto aprovado pelo regulador.
A retirada das grelhas dos três principais operadores representa mais um golpe num projeto que acumula dívidas superiores a cinco milhões de euros e deixou dezenas de trabalhadores com vários meses de salários em atraso.
Como o 24Horas já revelou, mais de meia centena de profissionais, a maioria com quatro a cinco meses de salários por receber, requereram a insolvência da empresa. Cansados de sucessivas promessas não cumpridas e sem esperança de uma solução financeira, os trabalhadores veem no recurso aos tribunais uma possibilidade de recuperar parte do dinheiro que lhes é devido através do Fundo de Garantia Salarial.
Promessa de milhões
O desaparecimento do Conta Lá das grelhas de televisão é mais um capítulo do naufrágio de um projeto que, em junho de 2024, era apresentado aos potenciais investidores como um negócio avaliado em 30 milhões de euros, com previsões de receitas anuais de 41,5 milhões em 2030.
O 24Horas revelou que Maurício Ribeiro e Sérgio Figueiredo procuraram atrair investidores com um documento que apresentava uma poderosa estrutura empresarial, envolvendo grandes grupos económicos entre os potenciais acionistas e antigas governantes, como Assunção Cristas e Rita Marques, surgiam como administradoras.
Mas esta montra, feita com nomes de peso e respeitáveis grupos empresariais, era enganadora. A Visabeira garante que recusou investir e denuncia a utilização abusiva do seu nome. O Grupo Barraqueiro, esse, nem sequer tem memória de alguma proposta de negócio. E várias das personalidades apresentadas como administradores asseguram que nunca aceitaram os cargos que lhes eram atribuídos. A poderosa estrutura empresarial anunciada por Ribeiro e Figueiredo era, em boa parte, uma construção de papel, feita de grandes nomes que não estavam comprometidos com o projeto. Uma montra de luxo, tão falsa como Judas, para dar ao Conta Lá uma credibilidade que, afinal, valia tanto como uma nota falsa.
Dois anos depois, com dívidas superiores a cinco milhões de euros, salários por pagar e mais de 50 trabalhadores a prepararem um pedido de insolvência, o sonho dourado transformou-se num pesadelo.
As dívidas ultrapassaram os cinco milhões de euros, a lista de credores engrossou — com as Finanças e a Segurança Social entre os principais — e as tentativas de financiamento falharam sucessivamente.
Os cinco milhões de euros que os responsáveis esperavam obter através do Banco Português de Fomento nunca chegaram. O mesmo aconteceu com as promessas de investimento provenientes de Macau.
Pelo meio, a empresa chegou a propor a vários jornalistas uma solução particularmente penosa: aceitar a cessação dos contratos de trabalho e receber os montantes devidos pela saída ao longo de 18 meses. Na prática, quem perdia o emprego era ainda convidado a dar crédito, durante um ano e meio, à empresa que o dispensava.
Sérgio Figueiredo abandonou a liderança executiva em julho. A Comissão de Gestão eleita em agosto, composta por Paulo Rego, pelo irmão Rui Rego e por Diogo Alexandre, nem sequer chegou a tomar posse.
Agora, o Conta Lá desapareceu também das grelhas da MEO, NOS e Vodafone. O canal desapareceu dos ecrãs. Mas há contas que continuam por pagar.

















