A produtora Coral Europa pediu a insolvência do Conta Lá no dia 28 de outubro. Quatro dias depois, a 1 de novembro, o canal deixou de emitir na MEO, NOS e Vodafone. A retirada das grelhas das três operadoras, já noticiada pelo 24Horas, foi mais um episódio do colapso do projeto televisivo de Maurício Ribeiro e Sérgio Figueiredo, afundado em dívidas milionárias, processos judiciais e salários por pagar.
A produtora Coral Europa apresentou, na quarta-feira, 28 de outubro, um pedido de insolvência da Conta Lá – Conteúdos Audiovisuais, empresa responsável pelo canal de televisão. O requerimento deu entrada no Juízo de Comércio de Lisboa.
Quatro dias depois, no domingo, 1 de novembro, o Conta Lá deixou de emitir nas três principais operadoras de televisão por subscrição: MEO, NOS e Vodafone.
A sequência dos acontecimentos acrescenta um novo capítulo à crise do canal. Primeiro, o pedido de insolvência apresentado por um dos credores. Depois, o desaparecimento do sinal das principais plataformas de distribuição televisiva do país.
As três operadoras passaram a apresentar mensagens de indisponibilidade, atribuindo a interrupção das emissões a motivos alheios à sua responsabilidade.
O 24Horas já tinha revelado a retirada do Conta Lá das grelhas da MEO, NOS e Vodafone, poucos dias depois de ter confrontado os três operadores com uma pergunta incómoda: por que razão continuavam a disponibilizar um canal que, transformado num carrossel de repetições, já não cumpria o projeto autorizado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC)?
Dos quatro serviços de programas inicialmente autorizados — Norte, Centro, Sul e Rural —, apenas o Conta Lá Norte continuava a emitir. E mesmo esse se limitava a repetir programas antigos, sem produção original nem serviços noticiosos.
Um mar de dívidas
A Coral já tinha avançado, em 18 de agosto, com um processo executivo contra a empresa, reclamando 266.934,16 euros. Trata-se da maior reclamação individual entre os processos judiciais identificados.
Desde julho, o Conta Lá acumula nove processos em tribunal, que envolvem reclamações superiores a 530 mil euros.
A a produtora Coral Europa é, entre grupo, a maior credora. Reclama 266.900 euros. Seguem-se a sociedade de advogados Vieira, Grilo e Silva (71.631 euros), a Mentes de Contacto – Produções Multimédia (39.589 euros), Isabel Maria dos Santos Osório (36.636 euros), a Vozes e Memórias (35.555 euros), a Magnelusa (33.139 euros), a sociedade de advogados Cruz, Salinas, Mayer & Associados (31.274 euros) e, pelo grupo Impresa, Teresa Gonçalves (20.834 euros).
Mas os processos judiciais já em marcha representam apenas uma parte dos problemas financeiros do canal.
Como o 24Horas já revelou, as dívidas globais do projeto ultrapassam os cinco milhões de euros, incluindo compromissos com fornecedores, trabalhadores, as Finanças e a Segurança Social.
Mais de meia centena de profissionais, muitos deles com quatro a cinco meses de salários em atraso, mobilizaram-se também para requerer a insolvência da empresa.
Cansados de sucessivas promessas não cumpridas e sem perspetivas de receber os ordenados em dívida, os trabalhadores veem no recurso aos tribunais uma possibilidade de recuperar parte do dinheiro através do Fundo de Garantia Salarial.
Uma promessa de 30 milhões
O pedido de insolvência da Coral é mais um episódio do naufrágio de um projeto que, em junho de 2024, era apresentado a potenciais investidores como um negócio avaliado em 30 milhões de euros, com previsões de receitas anuais de 41,5 milhões em 2030.
Maurício Ribeiro e Sérgio Figueiredo procuraram atrair financiamento através de um documento que anunciava uma poderosa estrutura empresarial, envolvendo grandes grupos económicos entre os potenciais acionistas e antigas governantes, como Assunção Cristas e Rita Marques, apresentadas como administradoras.
O 24Horas revelou, porém, que vários dos investidores e personalidades referidos nunca tinham assumido os compromissos que lhes eram atribuídos.
A Visabeira garantiu que recusara investir e denunciou a utilização abusiva do seu nome. O Grupo Barraqueiro assegurou nem sequer ter memória de alguma proposta de negócio. E várias das personalidades apresentadas como administradores afirmaram nunca ter aceitado os cargos.
A poderosa estrutura empresarial anunciada por Ribeiro e Figueiredo era, em boa parte, uma construção de papel, feita de grandes nomes que não estavam comprometidos com o projeto.
Dois anos depois, a promessa de um negócio milionário deu lugar a uma empresa mergulhada em dívidas, com salários por pagar e uma lista crescente de credores.
As tentativas de financiamento falharam sucessivamente. Os cinco milhões de euros que os responsáveis esperavam obter através do Banco Português de Fomento nunca chegaram. O mesmo aconteceu com as promessas de investimento provenientes de Macau.
Pelo meio, a empresa chegou a propor a vários jornalistas a cessação dos contratos de trabalho, com o pagamento dos montantes devidos ao longo de 18 meses. Na prática, quem perdia o emprego era convidado a financiar, durante mais um ano e meio, a empresa que o dispensava.
Sérgio Figueiredo abandonou a liderança executiva em julho. A comissão de gestão eleita em agosto, composta por Paulo Rego, Rui Rego e Diogo Alexandre, nem sequer chegou a tomar posse.
Agora, a produtora Coral avançou com um pedido de insolvência e o Conta Lá deixou de emitir nas principais operadoras nacionais.
O projeto que prometia valer 30 milhões de euros desapareceu dos ecrãs. Apagou-se. Mas as dívidas, essas, continuam a reluzir.

















