Asfixiado por dívidas que, como o 24Horas tem revelado, já ultrapassam os cinco milhões de euros, com salários em atraso, credores à porta, entre os quais o Estado, a quem devem centenas de milhares de euros, e uma emissão transformada praticamente num carrossel de repetições, o Conta Lá conseguiu, ainda assim, arranjar quem lhe desse boleia. E não foi uma boleia qualquer: embarcou nos comboios da CP, uma empresa que pertence integralmente ao Estado.
A empresa pública afastou dos seus comboios conteúdos produzidos por vários canais regionais — entre eles o Canal N, que cobre 34 concelhos de Trás-os-Montes e Alto Douro — e colocou no seu lugar vídeos fornecidos pelo Conta Lá. A diferença é simples: os canais regionais nada cobravam à CP; o Conta Lá, segundo apurou o 24Horas, é pago pelos conteúdos que fornece.A boleia, portanto, é muito especial:a CP não se limita a transportar o Conta Lá — ainda lhe paga a viagem.
Há, porém, um pormenor que torna esta boleia ainda mais curiosa. O Conta Lá tem avultadas dívidas às Finanças e à Segurança Social, quer isto dizer que o Estado ocupa, neste negócio, dois lugares na mesma carruagem: num, é credor da empresa; no outro, através da CP, abre a carteira para pagar a quem lhe deve.
E, no estado de penúria financeira em que vive o Conta Lá, qualquer migalha de dinheiro é um maná. Dos cerca de 40 jornalistas que chegaram a integrar o projeto, restará hoje apenas metade. Os salários estão atrasados há três meses e, para vários dos que ainda resistem, a porta da rua já lhes foi indicada. Rui Rego, advogado que, juntamente com o irmão, Paulo Rego, integra a Comissão de Gestão do canal, encontrou uma solução à medida da tesouraria: despedir agora e pagar depois, muito depois.
‘Mauricío style’
Num e-mail enviado aos jornalistas, a que o 24Horas teve acesso, Rui Rego comunicou-lhes que os seus lugares “não estão contemplados na equipa que dará continuidade ao projeto” e propôs que tudo o que lhes vier a ser devido pela cessação dos contratos seja pago em suaves prestações ao longo de 18 meses. Em resumo: quem perde o emprego fica ainda convidado a dar crédito, durante um ano e meio, à empresa que o põe na rua.
Deixar contas por pagar está longe de ser um acidente no percurso empresarial de Maurício Ribeiro, principal acionista do Conta Lá através da sua empresa Baú D’Iniciativas.

Maurício não está sozinho no capital do Conta Lá. O outro sócio é Sérgio Figueiredo, através da Plataforma Coerente, empresa que constituiu com a namorada, Margarida Pinto Correia, e na qual detém 70 por cento do capital. Dinheiro público, de resto, não é território desconhecido para a sociedade:nos últimos cinco anos, segundo revelou o 24 Horas, a Plataforma Coerente arrecadou cerca de 237 mil euros em contratos com entidades públicas.
Os caminhos dos dois sócios já se cruzavam antes do Conta Lá. Num concurso lançado pela Câmara da Guarda, que acabou por adjudicar à Plataforma Coerente um contrato de 74 mil e 900 euros, uma das empresas consultadas foi precisamente a Mau Mau Mia, de Maurício Ribeiro. O mundo dos negócios, afinal, também tem destas felizes coincidências.
A salvação que tarda de Macau…
Com o Conta Lá já a meter água por todos os lados, apareceu um novo salvador: Paulo Rego, homem com uma particular atração por projetos difíceis. Antigo diretor-adjunto da Lusa, ex-vice-presidente da Global Media e proprietário do Plataforma Macau, entrou no projeto com uma promessa à altura do desastre: dois milhões de euros, alegadamente angariados em Macau, para tentar tirar do buraco um canal atolado em dívidas. O salvador chegou, o dinheiro é que, até agora, não.

A ligação entre Paulo Rego e Kevin Ho, o empresário que, segundo Rego, supostamente podia abrir os cordões à bolsa, vem de longe. Foi pela mão do empresário macaense que Rego chegou à administração da Global Media, onde, representando os interesses de Ho, ascendeu a vice-presidente. A passagem dos dois pelo grupo deixou uma marca controversa: nesse período foram vendidas as antigas sedes do Diário de Notícias, na Avenida da Liberdade, por cerca de 20 milhões de euros, e do Jornal de Notícias, no Porto, por cerca de nove milhões. O dinheiro depressa desapareceu nas contas de um grupo cuja gestão desse período ainda é descrita internamente como “megalómana” e “sem rei nem roque” e que acabaria por contribuir decisivamente para um passivo superior a 30 milhões de euros.
Foi por essa proximidade que, quando Paulo Rego apareceu no Conta Lá a prometer investidores e dois milhões de euros vindos de Macau, muitos olhos se viraram naturalmente para Kevin Ho. Só que Ho já deixou claro, segundo apurou o 24Horas, que não está disposto a investir “um único cêntimo” no Conta Lá.
Quem tem efetivamente acudido às urgências é um empresário do Norte, como o 24Horas revelou, que já terá emprestado mais de meio milhão de euros ao projeto — dinheiro usado, entre outras coisas, para evitar uma ameaça de corte do sinal.
De Macau vieram, até agora, as promessas. Do Norte, pelos vistos, veio o dinheiro.
O plano para sacarem ao Estado
Muito antes de Paulo Rego aparecer com os prometidos milhões de Macau, o Conta Lá já tinha encontrado outra tábua de salvação. E bastante mais generosa: cinco milhões de euros através do Banco Português de Fomento, uma instituição de capitais exclusivamente públicos.
Nessa altura, o canal levava apenas cerca de seis meses de vida e já tinha conseguido a proeza de acumular mais de dois milhões de euros em dívidas. Havia trabalhadores sem receber, senhorios cansados de esperar pelas rendas e fornecedores com centenas de milhares de euros por cobrar. A Ibertelco, por exemplo, reclamava cerca de 450 mil euros; aGMTS, que fornecera meios técnicos para a cobertura das eleições autárquicas, outros 300 mil. O Conta Lá já tinha mesmo sido despejado de instalações em Lisboa e no Porto por falta de pagamento.

Foi então que Maurício Ribeiro e Sérgio Figueiredo começaram a sossegar os trabalhadores com a notícia de que vinha aí dinheiro. Muito dinheiro. Segundo diziam internamente, estava a ser negociada com o Banco Português de Fomento uma linha de financiamento de cinco milhões de euros e faltavam apenas ultrapassar umas inocentes “questões meramente burocráticas”. As questões burocráticas revelaram-se, aparentemente, mais resistentes do que o previsto. Os cinco milhões nunca chegaram...
Também não ajudaria seguramente o currículo empresarial de Maurício Ribeiro. Quando o pedido de financiamento estava em cima da mesa, o principal acionista do Conta Lá já carregava atrás de si a falência da Just Cine, a insolvência da Just Up e uma Mau Mau Mia que, em 2025, enfrentava 12 processos judiciais por dívidas próximas dos600 mil euros, isto além de um ror de acusações de burla nas redes sociais por parte de clientes supostamente lesados na sua atividade de fotógrafo de casamentos e batizados.
O Banco de Fomento não salvou o Conta Lá. Meses depois, a salvação mudou de geografia: saiu de Lisboa e passou a vir de Macau. Com os milhões de Macau ainda sem chegar, a estratégia dos Rego começa, entretanto, a revelar-se por aquilo que já é visível no terreno: emagrecer a empresa, despedir trabalhadores, renegociar a dívida e continuar à procura do investidor que há de salvar o canal.
O próprio Rui Rego admite, no e-mail enviado aos jornalistas, que a “reestruturação financeira e operacional” do canal depende decisivamente da entrada de um novo investidor, cujo aparecimento “não se encontra, para já, totalmente assegurado”. Depois de tantas supostas tábuas de salvação, que mais não passaram de promessas vãs, o Conta Lá continua a debater-se na agonia.

















