O exército russo, segundo foi noticiado em todo o mundo, abateu perto de Bryansk um “raro” drone português de reconhecimento, o Tekever AR3, ao serviço dos ingleses. O aparelho é um autêntico prodígio da engenharia fabricado nas Caldas da Rainha, a terra da conhecida e tradicional cerâmica de Bordalo Pinheiro. De acordo com a agência russa Tass, que cita o comandante do batalhão responsável pelo abate, nunca se tinha visto nada assim.

O drone foi detetado pelos radares e perseguido durante cerca de meia hora, mas a missão não foi fácil:  o aparelho voava constantemente a uma altitude de aproximadamente 2,5 quilómetros e a uma velocidade de cerca de 100 km por hora – e só por pouco e uma pitada de sorte conseguiram derrubá-lo.

A voar na Ucrânia desde 2022

O drone faz parte de um fornecimento da Tekever às tropas da Ucrânia por encomenda de diversos Estados europeus e da NATO num valor que ronda os mil milhões de euros. A colaboração com Kiev começou na primavera de 2022. Os drones portugueses “têm sido fundamentais para detetar as movimentações do exército russo a longas distâncias, bem como identificar potenciais alvos para serem destruídos”, como reconhece o governo do Reino Unido, país que lidera o fundo responsável pela compra das aeronaves não tripuladas.

Um fator-chave para o êxito dos drones da Tekever na Ucrânia é a sua capacidade de atualização constante para dar resposta às exigências no terreno, mesmo em ambientes congestionados por sistemas de guerra eletrónica. Os equipamentos saídos do seu centro de engenharia nas Caldas da Rainha são exclusivamente para missões críticas de reconhecimento e vigilância de longo alcance, excluindo o combate militar direto.

A Tekever tem pelo menos dois tipos de aeronaves a atuar na guerra na Ucrânia: o AR3, um drone versátil, com autonomia até 16 horas, projetado para missões em terra e no mar, e o AR5, especializado em operações marítimas de longa duração, com autonomia até 20 horas e capacidade para missões de busca e salvamento.

O drone abatido, do tipo AR3, tinha uma estrutura diferente na cauda e nas asas – tão inovadora que os russos não perceberam o que estavam a perseguir. “Quando chegámos ao local do despenhamento, descobrimos que se tratava de um drone de reconhecimento português”, diz o comandante russo citado pela Tass. O motor ficou danificado, mas a fuselagem, o equipamento de bordo e a maior parte da estrutura permaneceram intactos. O aparelho foi transferido para um instituto de investigação, onde especialistas irão estudar as soluções de engenharia. Nada que tire o sono aos engenheiros portugueses.

“O que distingue a Tekever não é o estado da tecnologia num dado momento, mas a velocidade a que a fazemos evoluir. Os nossos sistemas são atualizados de forma contínua, em ciclos de semanas, em função dos requisitos de missão e da evolução do contexto operacional”, esclarece a empresa em comunicado.

Quando os russos descobrirem os segredos do drone português abatido, outros ainda mais sofisticados, saídos da fábrica das Caldas da Rainha, hão de voar ameaçadores sobre as suas cabeças. Putin que se cuide!