Duarte Gomes, antigo Diretor Técnico Nacional de Arbitragem, diz ter perdido toda a confiança em Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem (CA) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), e admite que a relação com Pedro Proença, presidente da FPF, ficou "beliscada". As declarações constam de uma entrevista ao jornal A Bola, publicada esta terça-feira, dia 29, a primeira que o ex-árbitro dá desde a demissão, num processo que está a ser investigado pela Polícia Judiciária e se encontra em segredo de justiça.

Na conversa com o diretor-adjunto do jornal, Alexandre Pereira, Duarte Gomes explica que a saída resultou de uma quebra de confiança que considera irreparável. Na origem está a denúncia de um árbitro que terá sido abordado por um ex-árbitro assistente internacional, já retirado, que lhe antecipou a nomeação para um jogo do Estrela da Amadora na reta final do último campeonato. Segundo o relato, o árbitro teria sido indicado pelo então dirigente da SAD do Estrela. A Bola identifica, em nota de redação, o árbitro como Hélder Malheiro e o dirigente como Paulo Lopo.

Duarte Gomes sublinha que as nomeações antecipadas se confirmaram na íntegra, com 11 e 20 dias de antecedência, e calcula que a probabilidade de tal acontecer por acaso é de apenas 0,1 a 0,2 por cento. Garante também ter visto uma captura de ecrã de uma mensagem enviada por Luciano Gonçalves ao árbitro, na véspera do jogo, com a expressão "sim, é verdade" e emojis a pedir silêncio. A mensagem foi apagada pouco depois. O presidente do CA terá justificado o envio com a possibilidade de o árbitro dirigir a final da Taça de Portugal, explicação que Duarte Gomes diz não considerar "adequada".

O antigo responsável conta que teve três reuniões pessoais com Luciano Gonçalves para esclarecer o caso. Logo após a primeira, o ex-árbitro assistente tentou contactá-lo por videochamada e ligou ao árbitro denunciante, mostrando saber da conversa. "Árbitro foi pressionado por alguém que sabia de todas as minhas reuniões", afirma. Classifica ainda como "inadmissível" uma reunião que Luciano Gonçalves terá tido a sós com Paulo Lopo nas instalações do clube, na Reboleira.

Depois de informar Pedro Proença, que lhe pediu que pusesse tudo por escrito, Duarte Gomes enviou o email de demissão. Na sequência, o presidente da FPF e o CA remeteram o caso ao Ministério Público. O ex-DTN diz que se disponibilizou para entregar às autoridades o telemóvel e o acesso a contas bancárias, próprias e da família.

Amigo de Pedro Proença há 35 anos, separa a relação pessoal da institucional e considera que, no futuro, não lhe parece viável voltarem a trabalhar juntos. Quanto a Luciano Gonçalves, defende que, no seu lugar, teria suspendido o mandato até a justiça fazer o seu trabalho. Não se mostra surpreendido com o arquivamento do caso no Conselho de Justiça, que considera um órgão limitado na avaliação de provas.

Duarte Gomes demarca-se de outros episódios noticiados, como a alegada tentativa de condicionar uma nomeação para um FC Porto-Benfica, que considera especulativos. E faz questão de defender os árbitros: nos jogos em causa, as notas foram boas e o Estrela não venceu. "Os árbitros são honestos, empenhados e sérios. A nível político é que falta transparência", resume.

O antigo DTN garante que esta é a primeira e última entrevista sobre o tema e que não quer "qualquer cargo". "Os tribunais precisam de provas mas a consciência não", concluiu ao jornal A Bola.