Jon Fosse, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 2023, confessou este sábado, dia 10, em Óbidos, que a consagração mundial trouxe consequências inesperadas à sua vida, sobretudo pela perda de privacidade. Perante uma plateia que esgotou a tenda do Folio, o escritor norueguês de 67 anos falou da fama, da infância, da fé e dos mistérios da existência.

"O prémio é uma bênção, mas também é uma maldição", afirmou Fosse, lamentando que já não consiga sair de casa, em Oslo, "sem ser reconhecido" e abordado por "imensa gente" que pretende tirar fotografias.

Assumidamente "tímido e reservado", o escritor recordou uma infância difícil, durante a qual foi um "mau aluno" e encontrou na música "um refúgio". Mais tarde, descobriu na literatura uma forma de expressar sentimentos e experiências profundas.

Uma dessas experiências aconteceu aos 7 anos, quando sofreu um acidente e viveu aquilo que descreve como uma situação de quase morte. "Vi-me a mim próprio fora do corpo", contou, admitindo que o episódio acabou por moldar a sua identidade artística.

Autor de mais de 70 livros, Fosse explicou que a sua escrita procura dar voz ao "indizível", através de ritmos, pausas e silêncios.

Convertido ao catolicismo, defendeu que "Deus tem de estar presente na primeira página de um bom texto", embora reconheça a impossibilidade de explicar todos os mistérios da existência. "Quanto mais escrevo, mais aprendo, quanto mais leio, mais misterioso tudo se torna. É tudo um mistério e temos de aceitar."

O Folio decorre até dia 18, reunindo 450 autores em cerca de 300 iniciativas, sob o lema 'Para além da pele'.