A OpenAI prepara-se para dar à publicidade um peso crescente no seu modelo de negócio. Oliver Jay, vice-presidente de estratégia e operações internacionais da empresa, explicou que a intenção é manter uma versão gratuita do ChatGPT acessível ao maior número possível de utilizadores, combinando assinaturas pagas com receitas de anúncios. O argumento é o da democratização: que ninguém fique de fora por não poder pagar.

Os dados disponíveis sugerem, porém, que o acesso universal não garante benefícios universais. Nos Estados Unidos, a utilização de inteligência artificial está concentrada nas regiões mais ricas e tecnologicamente avançadas (São Francisco, Nova Iorque, Washington e Seattle) , enquanto os estados economicamente mais frágeis apresentam níveis muito inferiores. A ferramenta é a mesma; a capacidade de a transformar em rendimento não é.

A mesma assimetria aparece nos mercados financeiros. As ações ligadas à inteligência artificial representam grande parte dos ganhos recentes do S&P 500, mas quase 90% da riqueza investida em ações pertence aos 20% de famílias com rendimentos mais elevados. Quem usa o ChatGPT gratuitamente e quem capta a valorização das empresas de IA são, em larga medida, grupos diferentes.

A expansão internacional segue essa lógica. O Brasil surge como mercado estratégico, com parcerias anunciadas junto de instituições públicas, académicas e empresariais, e uma estimativa de impacto económico próximo de 163 mil milhões de euros até 2030. O setor financeiro brasileiro é já um dos que mais recorre a IA para automatizar processos e desenvolver produtos, automatização que promete ganhos de eficiência antes de prometer empregos.

Entretanto, a expectativa em torno de uma eventual entrada da OpenAI em bolsa continua a crescer, depois de uma ronda de financiamento ter elevado a avaliação da empresa para cerca de 728 mil milhões de euros. O economista Daron Acemoglu, Prémio Nobel em 2024, alerta precisamente para este cenário: uma tecnologia capaz de criar novos multimilionários enquanto reduz os rendimentos de parte significativa dos trabalhadores.

A batalha da OpenAI será monetizar centenas de milhões de utilizadores sem transformar o ChatGPT numa plataforma dominada pela publicidade. A batalha política será outra: perceber quem fica com a riqueza que a IA gerar, e quem paga o preço da automação.