A Comissão Europeia quer que cada agregado familiar consiga satisfazer as necessidades essenciais durante pelo menos 72 horas em caso de crise, mas não obriga ninguém a fazê-lo nem define quantidades. As orientações, não vinculativas, foram apresentadas na terça-feira, dia 3, em Bruxelas, no Fórum da Proteção Civil Europeia, pela comissária Hadja Lahbib, e dirigem-se às autoridades nacionais de proteção civil, que as devem adaptar a cada país.
O documento técnico que acompanha as orientações enumera o que considera essencial em caso de perturbações graves: alimentos que se conservem à temperatura ambiente e possam ser consumidos sem aquecimento, água para beber, cozinhar e para a higiene, alternativas para aquecimento, arrefecimento e iluminação, medicamentos e material de primeiros socorros. A lista inclui ainda produtos de higiene, uma solução para o uso da casa de banho e para os resíduos, um rádio a pilhas e baterias portáteis carregadas.
Bruxelas aconselha também uma reserva de dinheiro vivo, com notas pequenas e moedas, para o caso de os pagamentos digitais falharem. Onde exista, deve haver igualmente um meio de pagamento digital que funcione sem ligação, e o texto aponta o futuro euro digital como exemplo.
A expressão “kit de emergência”, que se popularizou, é precisamente a que a Comissão pede às autoridades que evitem para as reservas domésticas, para não as confundir com o saco de evacuação. Este deve estar pronto para uma saída rápida de casa, com documentos de identificação, dinheiro e bens básicos, adaptados às necessidades de cada pessoa e aos riscos locais.
As recomendações vão além das compras. Os agregados são incentivados a ter um plano de emergência, com contactos escritos, ponto de encontro e localização do abrigo mais próximo, e a aprender competências como primeiros socorros ou cozinhar sem eletricidade. O documento lembra ainda a preparação para os animais de estimação.
A escolha das 72 horas assenta na pressão sobre os serviços de emergência nos primeiros dias de uma crise. Quanto mais famílias se aguentarem sozinhas, mais meios ficam disponíveis para quem mais precisa. A Comissão sublinha, porém, que este é um patamar mínimo e não a garantia de que a ajuda chega ao fim de três dias. Há países que já recomendam uma semana ou mais, e o próprio documento admite que colar a mensagem a um prazo fixo pode dificultar uma futura alteração.
Às autoridades, Bruxelas pede que expliquem que se trata de uma medida de precaução, sem ligação a uma ameaça imediata, e que evitem o alarmismo. O texto alerta também para o risco de comercialização da preparação e defende medidas simples e acessíveis, construídas de forma gradual a partir do que as pessoas já têm em casa.
As famílias com menos recursos são outra das preocupações. A Comissão vai realizar um estudo sobre a preparação destes grupos, com resultados previstos para 2027. Para as pessoas com deficiência, o documento recomenda medicação adicional, energia de reserva para equipamentos de apoio e planos para substituir serviços que possam ser interrompidos.
“Quando ocorre uma catástrofe, as primeiras horas podem fazer toda a diferença”, afirmou Hadja Lahbib, citada em comunicado da Comissão.
O pacote inclui orientações para integrar a preparação na educação pré-escolar e no ensino básico, sem gerar medo nas crianças, e para melhorar a comunicação de riscos à população. Bruxelas propõe ainda a criação do Dia Europeu da Preparação, a assinalar a 23 de outubro, a partir de 2027.
As orientações concretizam a Estratégia para uma União da Preparação, apresentada em março de 2025, que previa 30 ações-chave para reforçar a resposta europeia a catástrofes, pandemias, ciberataques e agressões armadas.

















