O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o senador Flávio Bolsonaro protagonizam um novo confronto político em torno da abertura de sigilos bancários, fiscais e telefónicos. Depois de Lula ter desafiado o adversário a divulgar os seus dados financeiros e pessoais, Flávio respondeu com uma lista de exigências que inclui informações sobre familiares do presidente, despesas dos cartões corporativos do Governo e contactos com o banqueiro Daniel Vorcaro.

A disputa ganhou força durante o debate televisivo da Band, realizado a 18 de outubro, quando Lula desafiou Flávio a autorizar a divulgação dos seus sigilos, afirmando que faria o mesmo. Na terça-feira, dia 20, o presidente formalizou junto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a sua disponibilidade para abrir os próprios dados e os de familiares, incluindo os da primeira-dama, Janja da Silva, dos seus filhos e de empresas associadas à família, desde que o senador aceitasse condições equivalentes.

Na quarta-feira, dia 21, Flávio apresentou a sua resposta ao TSE. O senador, do Partido Liberal (PL), declarou aceitar a abertura dos seus sigilos bancário, fiscal e telefónico relativos aos últimos 20 anos, mas condicionou o compromisso à divulgação de um conjunto alargado de informações relacionadas com Lula e o seu círculo familiar e político.

Entre as exigências estão dados financeiros e empresariais de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, informações sobre o Instituto Lula e empresas ligadas aos filhos do presidente, bem como registos relacionados com a primeira-dama. Flávio pretende ainda obter informações sobre despesas dos cartões corporativos da Presidência da República, utilização de aeronaves oficiais e registos de entrada de visitantes no Palácio do Planalto e no Palácio da Alvorada.

A lista inclui também Daniel Vorcaro, banqueiro e antigo proprietário do Banco Master, cujas relações com pessoas ligadas ao poder político têm sido alvo de atenção pública. O senador pede acesso a informações sobre reuniões, contactos e visitas relacionados com Vorcaro, além de dados relativos a assessores e outras pessoas próximas do presidente.

A iniciativa de Flávio alarga, assim, o âmbito do desafio lançado por Lula. Enquanto o presidente propôs a divulgação de informações relativas aos últimos oito anos, o senador ofereceu-se para abrir os seus próprios sigilos referentes a duas décadas, exigindo, em contrapartida, que o escrutínio abrangesse também outras pessoas, empresas e estruturas relacionadas com o Governo.

Lula deverá comparecer ao Tribunal Superior Eleitoral nesta quinta-feira, dia 22, para formalizar a resposta às exigências apresentadas pelo senador. A campanha do presidente anunciou que aceita avançar com as condições propostas, desde que Flávio também cumpra o compromisso de autorizar a abertura dos seus sigilos.

A eventual divulgação dos dados dependerá dos procedimentos legais aplicáveis e das decisões das autoridades competentes. A apresentação de pedidos de acesso a informações financeiras ou pessoais não constitui, por si só, prova de irregularidades por parte das pessoas visadas.

Nos bastidores, a campanha de Flávio Bolsonaro não esperava que Lula aceitasse alargar o âmbito da abertura dos sigilos às condições apresentadas pelo senador. A resposta do presidente terá sido recebida com satisfação por sua equipe, que vê na iniciativa uma oportunidade para reforçar o discurso de transparência e manter a pressão sobre o adversário para que também autorize a divulgação dos seus dados.

Com a segunda volta das eleições presidenciais marcada para domingo, 25 de outubro, o confronto sobre os sigilos tornou-se um dos temas da reta final da campanha. Lula procura associar a iniciativa à transparência, enquanto Flávio pretende alargar o escrutínio a familiares, assessores e estruturas ligadas ao presidente. O desfecho dependerá agora da formalização dos compromissos e dos procedimentos conduzidos pela Justiça Eleitoral.