Rafael Ferreira, de 28 anos, interpreta Carlos Paião em ‘Playback’, o filme que acompanha a vida e o universo criativo de um dos artistas mais acarinhados da música portuguesa. Em entrevista exclusiva ao 24Horas, o protagonista recorda o momento em que soube que tinha conseguido o papel, revela como se preparou para conhecer o lado mais íntimo do músico e fala das dificuldades de construir uma carreira como ator em Portugal. O filme estreia esta quinta-feira, dia 6 de agosto, em cerca de 55 salas de cinema do País.

Para interpretar o cantor e compositor no filme ‘Playback’, Rafael Ferreira estudou as suas atuações, entrevistas e participações em programas de televisão. Contudo, o verdadeiro desafio foi tentar descobrir quem era Carlos Paião quando as câmaras se desligavam e regressava ao convívio da família: "Era transformar um ícone numa pessoa real. Acho que esse foi o maior desafio, à parte de decorar as letras, as músicas e todo o resto, que também foi bastante difícil."

O momento em que soube que tinha sido escolhido para protagonizar ‘Playback’ parece retirado de um filme. Rafael Ferreira estava há cerca de três meses sem trabalhar como ator e tinha acabado de começar o primeiro dia à experiência num restaurante. Antes da abertura das portas aos clientes, enquanto preparava as mesas, recebeu o telefonema que lhe mudou a vida.

"Eu estava há três meses sem trabalho e no meu primeiro dia à experiência num restaurante. Antes de abrirmos as portas aos clientes, o Rui [Rui Neto, o agente] ligou-me e eu estava a pôr a mesa. Era para desligar, mas decidi atender", recorda.

Do outro lado da linha, a notícia não foi dada de imediato. "Ele ainda fez um bocado de suspense e disse: ‘Olha, o elenco do Paião está fechado.’ Eu pensei: ‘Pronto, mais um não.’ E depois disse-me: ‘Tu és o protagonista.’"

O ator não esperava ser escolhido, sobretudo porque não considerava ter grandes semelhanças físicas com Carlos Paião. Durante o casting presencial, chegou mesmo a reparar que existiam outros candidatos aparentemente mais parecidos com o músico.

"Quando fiz o casting, estava mais ou menos com esta aparência e não me achava nada parecido com ele. Consigo cantar e tudo mais, mas, mesmo no casting presencial, havia atores bem mais parecidos com o Carlos Paião do que eu", admite.

Além do trabalho de representação, Rafael Ferreira teve de preparar as canções de Carlos Paião e participar nas sequências musicais de ‘Playback’. Entre os temas recriados no filme encontram-se ‘Pó de Arroz’, ‘Cinderela’ e ‘Eu Não Sou Poeta’.

"As partes musicais foram muito divertidas de fazer, mas também muito difíceis e complexas", revela.

Mais do que uma biografia tradicional, ‘Playback’ procura transportar os espectadores para a mente e para o imaginário criativo de Carlos Paião. Rafael Ferreira descreve o filme como uma obra feliz, estilizada e construída em torno do sonho: "Não é bem uma biografia, porque o filme passa-se muito na cabeça do Carlos. Uma pessoa que trabalhou tanto como ele e que fez coisas tão extraordinárias... a nossa procura foi tentar explicar a forma como ele pensava."

"O filme é bastante onírico, sempre à base do sonho. Está bastante estilizado e, às vezes, pode não ser realista. Convido as pessoas que forem ver a mergulharem neste sonho coletivo", acrescenta.

Apesar de protagonizar uma produção dedicada a uma das figuras mais conhecidas da música portuguesa, Rafael Ferreira não esconde a instabilidade da profissão. Desde que terminou as gravações do filme, no final de 2025, ainda não voltou a trabalhar como ator.

Nos últimos meses, trabalhou no Oceanário de Lisboa, onde recebia os visitantes, enquanto continuava a enviar candidaturas e propostas para participar em castings: "Trabalhar só como ator é bastante difícil. Nos últimos três anos trabalhei sempre como ator, fiz o filme do Carlos Paião, mas, desde que o gravei, ainda não voltei a trabalhar como ator. Vamos ver se isso muda entretanto."

O protagonista espera que a estreia de ‘Playback’ possa trazer novas oportunidades, embora reconheça que o futuro não depende apenas do seu trabalho: "Espero que sim. Agora, se isso vai acontecer ou não, não sei. Não depende de mim. Aquilo que depende de mim tenho feito, que é enviar propostas para participar em castings e tudo mais."

Rafael Ferreira considera que a dimensão reduzida da indústria portuguesa torna o acesso a papéis ainda mais difícil para quem não tem um nome conhecido do grande público.

"Estamos numa indústria muito pequena, em que normalmente as pessoas mais famosas levam sempre a melhor. É difícil concorrer contra pessoas famosas", lamenta.

‘Playback’ estreia esta quinta-feira, dia 6 de agosto, e estará disponível em cerca de 55 salas de cinema de norte a sul do País.