Em 1969, ‘A Piscina’ chegou aos cinemas portugueses e provocou um fenómeno pouco habitual. O filme, protagonizado por Alain Delon e Romy Schneider, começou por ser exibido sem cortes, mas acabou retirado de cartaz poucos dias depois, num episódio que expôs os limites da chamada “primavera marcelista”.
A longa-metragem estreou primeiro no Porto, no Águia d’Ouro, e depois em Lisboa, no Tivoli. As imagens de Romy Schneider em algumas das cenas mais sensuais atraíram milhares de espectadores e causaram enorme impacto numa sociedade habituada à forte intervenção da censura.
Na época, Portugal vivia sob o regime do Estado Novo. Marcello Caetano tinha sucedido a António de Oliveira Salazar, que se encontrava já incapacitado, e procurava transmitir uma imagem de maior abertura política. O período ficou conhecido como “primavera marcelista”, embora a repressão, a censura e a guerra colonial continuassem.
No cinema, as autoridades podiam autorizar um filme integralmente, ordenar cortes ou simplesmente impedir a sua exibição. ‘A Piscina’ foi inicialmente autorizada sem alterações, numa decisão que parecia sinalizar alguma mudança de atitude.
A reação do público, porém, foi acompanhada por uma crescente contestação de setores mais conservadores. Começaram a chegar ao Governo críticas dirigidas sobretudo às cenas consideradas de teor sexual e imoral. Entre as pessoas que terão manifestado desagrado estaria a filha do então Presidente da República, Américo Tomás.
O resultado foi a retirada do filme das salas. Para muitos, o episódio tornou evidente que a prometida abertura tinha limites bastante claros. A verdadeira mudança política só chegaria cinco anos mais tarde, com a Revolução de 25 de Abril de 1974.
Mais de meio século depois, ‘A Piscina’ continua a ser recordado como um dos grandes filmes de culto do cinema europeu e regressou, entretanto, às salas numa versão restaurada.
A história acompanha Jean-Paul e Marianne, um casal que passa o verão numa casa luxuosa da Riviera francesa. A aparente tranquilidade altera-se com a chegada de Harry, antigo amante de Marianne, e da sua filha Penelope, de 18 anos. A presença dos novos personagens desencadeia uma espiral de desejo, tensão e ciúme.
A química entre Alain Delon e Romy Schneider reforça a dimensão sensual da obra. Os dois tinham mantido anteriormente uma relação amorosa muito mediática e voltavam a contracenar depois de vários anos.
O filme começa por explorar o desejo e as relações entre os personagens, mas acaba por assumir também contornos de thriller após um acontecimento trágico. A realização ficou a cargo de Jacques Deray, que viria a trabalhar novamente com Delon em vários projetos.
A versão restaurada de ‘A Piscina’ pode atualmente ser vista no Cinema Ideal, em Lisboa, com bilhetes a 8 euros, permitindo redescobrir no grande ecrã um dos clássicos do cinema europeu que marcou a relação entre cinema e censura em Portugal.

















