Mais de 300 baleias-de-bossa foram avistadas em simultâneo ao largo da costa oeste da África do Sul, ao longo de toda a costa da Namíbia e até ao sul de Angola no maior ajuntamento da espécie alguma vez registado. O fenómeno, documentado por fotógrafos de vida selvagem, faz parte de uma tendência recente que intriga os cientistas: os chamados “supergrupos”, concentrações de 20 ou mais baleias que se mantêm juntas durante várias horas.

Nessa ocasião, foram contados 304 animais diferentes a emergir, mergulhar e saltar fora de água quando ainda há trinta anos as baleias-de-bossa eram quase impossíveis de encontrar.

Estes encontros em massa só começaram a ser observados por volta de 2011. Entre 2015 e 2022, foram registados 239, segundo um estudo publicado na revista Marine Mammal Science onde se defende que se trata de um comportamento novo e não de uma lacuna nos registos históricos: mesmo os relatos da época da caça à baleia só referem grupos de 10 a 15 animais. Desde 2022, os avistamentos tornaram-se mais frequentes e ocorrem praticamente durante todo o ano.

Os supergrupos são compostos quase só por juvenis. Em sete anos de observação, foram vistas crias no seu interior apenas quatro vezes. São também grupos instáveis, que se formam, dividem e voltam a juntar ao longo de horas, e reúnem baleias de várias populações reprodutoras distintas.

A explicação mais provável está na comida. O sistema de afloramento costeiro de Benguela, uma das zonas mais produtivas dos oceanos, traz à superfície, todos os verões, água fria e rica em nutrientes, alimentando explosões de plâncton, krill, camarão e pequenos peixes. Os cientistas verificaram que os supergrupos se formam depois de períodos de concentrações elevadas de clorofila, sinal desses picos de plâncton. Cada baleia precisa de mais de uma tonelada de alimento por dia.

Há outros fatores em jogo. A população mundial recuperou de cerca de 10 mil animais, no auge da caça industrial, para cerca de 80 mil, depois da moratória de 1985. Ao mesmo tempo, as alterações climáticas estão a reduzir o gelo marinho na Antártida, de que o krill depende, o que poderá estar a empurrar as baleias para zonas de alimentação alternativas. Um estudo publicado na Global Change Biology concluiu que, em anos de escassez de krill, a proporção de fêmeas grávidas caiu de 86% para 29%.

Continua por esclarecer se as baleias cooperam para se alimentar, como acontece na técnica de “rede de bolhas”, e para onde vão depois. Uma equipa de biólogos marinhos marcou vários animais em 2025, e a maioria permaneceu na região. Não se entende ainda se aquela costa é apenas uma paragem a caminho da Antártida ou se basta para as sustentar durante o ano, admite a investigadora.

A recuperação da espécie enfrenta ainda ameaças, como as colisões com navios junto a portos como a Cidade do Cabo e Saldanha Bay: as embarcações matam pelo menos 20 mil baleias por ano, de várias espécies.

Imagens capturadas neste domingo, dia 18, a 2 milhas ao largo de Luanda