O trabalho desenvolvido na recuperação da natureza e no apoio às comunidades locais valeu ao Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, o Prémio Legado E.O. Wilson para Liderança Transformadora na Conservação, uma distinção norte-americana que reconhece projetos com impacto na proteção da biodiversidade.
A entrega decorreu agora, durante o evento Half-Earth Day 2026, na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Aurora Malene, presidente do Projeto de Restauração da Gorongosa, recebeu o galardão em nome das equipas científicas, dos fiscais e dos profissionais que trabalham na área protegida e nas comunidades vizinhas.
Esta é a segunda vez que o prémio é atribuído. Na edição inaugural, em 2025, o distinguido foi o ator Harrison Ford, de 84 anos, conhecido também pelo seu envolvimento na defesa do ambiente. Foi o próprio quem destacou o percurso da Gorongosa e entregou simbolicamente o testemunho ao projeto moçambicano.
A distinção homenageia o legado de Edward O. Wilson, biólogo norte-americano e antigo professor de Harvard, que se notabilizou pelo estudo das formigas e pela investigação sobre a biodiversidade. A sua relação com a Gorongosa começou em 2008, tendo visitado o parque por três vezes, participado em trabalhos científicos e apoiado a formação de jovens investigadores moçambicanos. Wilson dedicou também parte do livro ‘A Window on Eternity’, publicado em 2014, à área protegida.
Recuperação da fauna e aposta na ciência
A história recente da Gorongosa é marcada pela devastação provocada pela guerra civil moçambicana. Entre 1972 e 2000, o parque perdeu mais de 90% dos seus grandes animais, segundo dados divulgados pela própria organização.
A recuperação começou através de uma parceria entre o Governo de Moçambique e a Fundação Carr, dando origem a um projeto que combina a restauração dos ecossistemas com iniciativas de desenvolvimento comunitário. Os resultados apresentados pelo parque apontam para uma biomassa de animais selvagens superior à registada na década de 1960. A população de leões também aumentou de menos de dez exemplares, em 2004, para mais de 250.
A investigação científica é outra das áreas centrais do projeto. Mais de 80 universidades já desenvolveram trabalho na região, incluindo Harvard, Princeton, Stanford, Oxford, Cambridge e Lyon. Ao longo deste percurso, foram documentadas mais de 8 mil espécies na paisagem da Grande Gorongosa, cerca de 200 das quais consideradas novas para a ciência.
O trabalho realizado deu ainda origem a mais de uma centena de artigos científicos e a estudos com repercussão internacional, nomeadamente sobre a evolução de elefantes sem presas após décadas de caça furtiva.
Na cerimónia, Aurora Malene sublinhou que o sucesso da conservação não deve ser avaliado apenas pelas espécies e pelos habitats recuperados, mas também pelas oportunidades criadas para as pessoas. A responsável defendeu, assim, uma visão da restauração ecológica que associe a recuperação da natureza à melhoria das condições de vida das comunidades locais.

















