Pablo Nobel, um dos nomes fortes da comunicação política brasileira e atualmente responsável pela campanha à reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, está no centro de uma polémica sobre o verdadeiro peso que teve na campanha presidencial de Javier Milei, na Argentina. Uma reportagem de João Batista Jr., publicada esta sexta-feira, 21 de agosto, na revista brasileira piauí, revela que a participação do consultor terá sido bastante mais limitada do que aquela que o seu currículo e algumas declarações públicas fizeram acreditar.

Nobel tornou-se particularmente valorizado no universo da direita brasileira depois da vitória de Milei, em 2023. Em entrevistas, contou ter sugerido alterações importantes na comunicação do argentino na segunda volta, incluindo uma estratégia destinada a moderar a imagem mais agressiva do candidato. Entre as ideias que reivindica está a adaptação da mensagem “a esperança venceu o medo”, associada à primeira eleição presidencial de Lula da Silva, em 2002, e a retirada da motosserra, uma das imagens mais polémicas de Milei, da comunicação destinada a conquistar eleitores mais moderados.

Argentinos desmentem

A investigação da piauí, porém, apresenta uma versão diferente. A campanha de Milei foi dirigida por Santiago Caputo, enquanto Santiago Oría comandou a produção audiovisual e Fernando Cerimedo esteve à frente da estratégia digital. Segundo a reportagem, pessoas ligadas à estrutura argentina contestam que Nobel tenha desempenhado qualquer função central. Cerimedo foi mesmo taxativo, garantindo à revista que Nobel nunca trabalhou formalmente na campanha e que apenas apresentou uma proposta que acabou rejeitada, classificando-o depois como “um impostor”.

Os factos apurados mostram uma realidade mais matizada. A agência PLTK Comunicação Estratégica, da qual Nobel é sócio, concorreu para coordenar a campanha antes da primeira volta, mas não foi escolhida. Já durante a segunda volta, Nobel manteve contactos com Santiago Caputo, trocou mensagens, participou em reuniões no comité eleitoral de Buenos Aires e apresentou sugestões. Existem, segundo a piauí, provas dessas interações. O próprio Nobel reconhece, contudo, que nunca foi contratado, não recebeu honorários e não existiu qualquer vínculo formal com a campanha. A participação terá sido, portanto, lateral e informal.

Currículo posto em xeque

A polémica ganha especial relevância porque Nobel é hoje uma peça importante na corrida eleitoral de Tarcísio de Freitas e coordena igualmente campanhas de outros candidatos da direita brasileira. Nos bastidores, refere a reportagem, existe já uma verdadeira disputa de protagonismo entre a equipa tradicional de televisão ligada a Nobel e os responsáveis pela estratégia digital, que terão conquistado maior proximidade com Tarcísio.

Também o alegado papel do argentino na campanha de Cláudio Castro para o Governo do Rio de Janeiro, em 2022, é questionado. Paulo Vasconcelos, que coordenou essa campanha, afirmou que Nobel terá realizado essencialmente dois dias de media training. Nobel responde que nunca afirmou ter dirigido a campanha e atribui a confusão ao trabalho realizado pelo seu sócio Marcelo Arbex.

Com experiência que passa por campanhas de Lula da Silva, Aécio Neves, Tarcísio de Freitas e Tabata Amaral, Pablo Nobel continua a ser um nome relevante no marketing político brasileiro. Mas a reportagem de João Batista Jr. deixa uma pergunta que pode pesar na campanha paulista: onde termina a participação efetiva e começa a construção de currículo?