Um grupo de 60 militantes, entre os quais um dos fundadores do Bloco de Esquerda (BE), ex-deputados, autarcas e antigos dirigentes nacionais, anunciou a desfiliação do partido, numa das mais significativas ruturas internas desde a criação da força política, em 1999.

A decisão foi tornada pública, esta terça-feira, dia 14, através de um comunicado em que os subscritores responsabilizam as sucessivas lideranças, de Catarina Martins e de Mariana Mortágua, pela perda da identidade política do BE, atualmente entregue e José Manuel Pureza.

Entre os signatários encontram-se o histórico da União Democrática Popular (UDP) Mário Tomé e o ex-deputado Pedro Soares. No documento, os militantes afirmam que o partido deixou de corresponder ao projeto político que ajudaram a construir: "Deixámos de ser bloquistas, porque o nosso Bloco acabou."

Os subscritores lamentam o que consideram ser o "fim de um projeto" concebido para unir diferentes setores da sociedade em torno de uma alternativa à hegemonia neoliberal e de uma transformação profunda da sociedade. Defendem que o partido perdeu ligação à sua base social e à esquerda de combate que esteve na sua origem.

As críticas dirigem-se igualmente ao funcionamento interno da organização. Segundo o comunicado, "a maioria da direção afastou-se do pulsar e do sentimento popular, burocratizou-se e institucionalizou-se, ficou insensível à crítica interna e sem projeto político autónomo credível".

O período da chamada 'Geringonça', durante o qual o BE celebrou um acordo parlamentar com o Governo minoritário do PS liderado por António Costa, é apontado como um momento de viragem. Os dissidentes sustentam que a direção transformou um entendimento conjuntural numa estratégia política permanente, comprometendo a autonomia do partido e aproximando-o da social-democracia.

O comunicado critica ainda a posição do Bloco relativamente à guerra na Ucrânia. Os signatários defendem que o partido deveria ter privilegiado a defesa de um plano de paz, considerando que o apoio à resistência ucraniana relegou para segundo plano a crítica ao alargamento da NATO para Leste. Simultaneamente, sublinham que a invasão russa da Ucrânia é "condenável".

Até ao momento, a direção do Bloco de Esquerda não reagiu publicamente ao comunicado dos militantes que anunciaram a saída do partido.