O Governo dos Estados Unidos pediu ao senador brasileiro Flávio Bolsonaro que retirasse de uma carta divulgada nas redes sociais as referências em que se apresentava como o «verdadeiro presidente eleito do Brasil». A informação foi avançada pelo jornalista Valdo Cruz, do g1, e confirmada por fontes diplomáticas que acompanharam o caso.

Segundo os relatos, responsáveis do Departamento de Estado norte-americano consideraram que a utilização daquela expressão poderia dar a entender que Washington reconhecia Flávio Bolsonaro como presidente eleito, criando um problema diplomático com o Governo brasileiro.

A primeira versão da carta foi divulgada na quarta-feira, 28 de outubro. Nela, o senador questionava o resultado das eleições presidenciais e apresentava-se como o verdadeiro vencedor da disputa, alegando a existência de fraude eleitoral, sem apresentar provas. Cerca de 40 minutos depois, o documento foi substituído por uma nova versão, na qual as expressões «verdadeiro presidente eleito» e «presidente eleito» deram lugar a «líder do Brasil» e «líder».

ASSESSOR DE TRUMP CONFIRMA ENVOLVIMENTO NO JATO

A polémica ganhou outra dimensão depois de Jason Miller, assessor de comunicação da Casa Branca e aliado de Donald Trump, confirmar ao Metrópoles que foi responsável por providenciar o jato privado utilizado por Flávio Bolsonaro para chegar aos Estados Unidos.

A informação tinha sido inicialmente publicada pelo jornal norte-americano The New York Times. Segundo a reportagem, Miller participou na organização do transporte aéreo, mantendo contacto com Eduardo Bolsonaro, irmão do senador.

Flávio viajou com a mulher e as duas filhas. O percurso incluiu uma passagem pela Argentina, de onde a família seguiu de avião para Guayaquil, no Equador, antes de chegar a Miami, na Florida, na quarta-feira (28).

A viagem ocorreu depois de a Polícia Federal brasileira ter determinado que o senador entregasse os passaportes no âmbito de investigações em curso. Segundo as informações divulgadas pela imprensa, os documentos foram posteriormente cancelados pelas autoridades brasileiras.

Donald Trump autorizou a entrada temporária de Flávio e dos familiares nos Estados Unidos através do mecanismo migratório conhecido como parole. A autorização permite a permanência temporária no país em circunstâncias específicas e não equivale à concessão automática de residência permanente.

WASHINGTON PROCURA EVITAR CRISE DIPLOMÁTICA

A intervenção de Jason Miller na organização da viagem e o pedido para alterar a carta revelam dois episódios distintos envolvendo a administração Trump e o senador brasileiro.

Apesar de ter facilitado a entrada de Flávio nos Estados Unidos, Washington não pretende reconhecer a sua autoproclamação como presidente eleito do Brasil.

A preocupação norte-americana seria evitar um conflito diplomático com Brasília e preservar os canais de diálogo com o Governo brasileiro, mesmo perante as divergências políticas entre os dois países.