Um documento atribuído a fontes da comunidade dos serviços de informações a que o 24Horas teve acesso, descreve ao pormenor uma complexa operação internacional destinada a retirar do Brasil Flávio Bolsonaro, o candidato derrotado nas eleições presidenciais, e aponta para o envolvimento dos serviços secretos norte-americanos, da estrutura de informações argentina e de colaboradores próximos de Donald Trump e Javier Milei.
A fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil, depois da derrota nas eleições presidenciais frente a Lula da Silva, terá sido muito mais do que uma saída apressada do país, tendo sido uma operação cuidadosamente preparada, com manobras de diversão, movimentação de aeronaves, circulação de informações falsas e colaboração de estruturas estrangeiras, e atribui à CIA a responsabilidade pela “extração” da família Bolsonaro e aos serviços de informações argentinos um papel decisivo na sua execução.
Segundo o documento, a retirada de Flávio Bolsonaro teria sido preparada em articulação entre elementos norte-americanos e argentinos, com conhecimento de responsáveis políticos próximos de Trump e Milei.
A operação terá sido acelerada após informações, alegadamente recolhidas por um agente infiltrado, sobre a intenção de Lula da Silva de conseguir a detenção do seu adversário presidencial.
Uma operação preparada antes da fuga
O documento chega a afirmar que o Presidente brasileiro teria ordenado que Flávio fosse detido a qualquer custo, envolvendo nessa decisão magistrados do Supremo Tribunal Federal, incluindo Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes que foi quem, aliás, determinou a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro à Polícia Federal, no âmbito de uma investigação relacionada com suspeitas de lavagem de dinheiro.

A primeira fase da operação descrita no documento consistiu numa encenação destinada a confundir os jornalistas que acompanhavam permanentemente os movimentos de Flávio Bolsonaro, quando na noite de segunda-feira, quatro automóveis pretos abandonaram, em conjunto, a residência do senador.
No primeiro seguia aparentemente apenas o motorista. No segundo, uma mulher que os jornalistas identificaram como podendo ser Fernanda Bolsonaro, mulher do político. Os restantes veículos tinham vidros escurecidos, impossibilitando a identificação dos ocupantes.
Segundo a narrativa, o objetivo era levar os jornalistas a acreditar que a família abandonava a residência naquele momento. Depois de serem seguidos, os automóveis separaram-se num entroncamento, tomando direcções diferentes. Os jornalistas dispersaram-se, sem saber qual dos veículos deveriam acompanhar.
Esta parte da operação encontra correspondência parcial em relatos jornalísticos. A Folha de S.Paulo confirmou a saída de um comboio de quatro automóveis, enquanto uma investigação publicada pelo diário argentino Clarín refere que terão sido utilizados seis veículos em sucessivas manobras de diversão.
O documento a que o 24Horas teve acesso, sustenta que a residência permaneceu iluminada, com música religiosa audível da rua, transmitindo a impressão de que os seus ocupantes continuavam no interior, numa tentativa de ganhar tempo e criar incerteza sobre a verdadeira localização da família.
O misterioso avião militar norte-americano
Uma das revelações mais sensíveis do documento envolve a alegada utilização de um avião militar norte-americano como elemento de diversão. Segundo o relato, um cargueiro Lockheed C-130T Hercules da Marinha dos Estados Unidos, identificado pelo código de voo CNV3370 e matrícula 164762, terá entrado no espaço aéreo brasileiro, depois de partir da base aeronaval de Jacksonville, na Florida.

A aeronave teria sobrevoado o Norte do Brasil antes de aterrar no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, às 19h07, sendo que a movimentação desta aeronave teria sido acompanhada pela Polícia Federal e pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que, segundo o documento, concentraram a sua atenção naquele voo.
O objetivo seria criar uma falsa pista, levando os serviços bsrasileiros a considerar a hipótese de Flávio Bolsonaro estar a ser transportado numa aeronave militar norte-americana.
É na intervenção argentina que o documento apresenta os elementos mais significativos, alguns dos quais encontram confirmação em investigações jornalísticas posteriores.
Segundo a narrativa atribuída às fontes dos serviços de informações, os responsáveis argentinos terão participado numa estratégia de desinformação destinada a multiplicar as pistas falsas, referindo o documento em causa que os nomes de Flávio Bolsonaro, da mulher e das filhas terão sido introduzidos nas listas de passageiros de seis aeronaves diferentes, com a intenção de obrigar as autoridades brasileiras a acompanhar simultaneamente diferentes voos, sem conseguirem identificar o verdadeiro percurso da família.
A existência dessas seis listas de passageiros não está comprovada. Mas há elementos independentes que apontam para a utilização de várias aeronaves na preparação da fuga. Uma investigação do Clarín, divulgada a 31 de Outubro, refere que o plano envolveu até quatro jatos privados, com rotas alternativas e movimentos destinados a confundir eventuais sistemas de vigilância.
O ‘inner circle’ de Milei entra em cena
Um Gulfstream IV permaneceu em Puerto Iguazú à espera dos passageiros. Um Learjet 45 terá efetuado movimentos na mesma região, enquanto duas outras aeronaves, de matrícula norte-americana, surgiram em registos de voos para Posadas, também na província argentina de Misiones. Segundo o jornal, pelo menos um desses aviões apresentou um plano de voo que não correspondeu ao trajeto efetivamente realizado.
Aliás,o envolvimento a alto nível do governo argentino é alvitrado pela revelação do jornal Clarín, que chegou a noticiar a presença de Santiago Caputo, um dos mais influentes estrategas e colaboradores do Presidente Javier Milei, em Puerto Iguazú para acompanhar a operação, garantindo que a família Bolsonaro conseguisse abandonar o território argentino sem incidentes e sem exposição mediática. O conselheiro presidencial terá acompanhado os movimentos desde a preparação do voo até ao embarque.

A imprensa argentina refere ainda que empresas ligadas à Embaixada dos Estados Unidos terão participado na contratação da aeronave utilizada pela família, e o mesmo jornal sustenta igualmente que funcionários aeroportuários argentinos foram afastados de determinadas áreas enquanto elementos ligados aos Estados Unidos supervisionavam procedimentos.
Estas revelações, embora não constituam prova definitiva da intervenção de serviços secretos, reforçam a suspeita de que a operação ultrapassou largamente uma iniciativa privada da família Bolsonaro. A presença de um colaborador tão próximo de Milei seria particularmente relevante: Caputo não é um funcionário administrativo secundário, mas um dos homens com maior influência junto do Presidente argentino e com contactos diretos nos círculos políticos de Washington.
As notícias falsas sobre a chegada aos Estados Unidos
Enquanto a família se deslocava em direção à fronteira argentina, começaram a circular informações de que Flávio Bolsonaro já teria abandonado o Brasil e chegado aos Estados Unidos. Uma das primeiras mensagens foi divulgada por Simón Levy, empresário e antigo responsável governamental mexicano, próximo dos círculos políticos de Donald Trump, que afirnou que Flávio estava em segurança nos Estados Unidos, atribuindo a Marco Rubio a responsabilidade pela operação.
A informação revelou-se prematura. Na altura em que essas declarações circulavam, a família Bolsonaro ainda não tinha concluído o percurso que a levaria a Miami, o que é interpretado pelo documento acedido pelo 24Horas como mais uma manobra deliberada de desinformação.
O objetivo seria convencer jornalistas e autoridades brasileiras de que a fuga já estava consumada, quando os seus protagonistas ainda se encontravam em território sul-americano.
Embora não esteja demonstrado que Levy tenha participado conscientemente numa operação de diversão, a cronologia confirma que as notícias sobre a chegada aos Estados Unidos antecederam a chegada efetiva.
Há um momento da operação que deixou de estar sujeito a especulações: às 22h50 de terça-feira, 27 de Outubro, Flávio Bolsonaro, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro e as duas filhas, Carolina e Luiza, deram entrada na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga a região brasileira de Foz do Iguaçu à cidade argentina de Puerto Iguazú, uma informação oficialmente confirmada pela Direção Nacional de Migrações da Argentina que, no comunicado divulgado, afirmava que os quatro apresentaram documentação de viagem válida e não existiam impedimentos legais à sua entrada no país.

Quarenta minutos depois, às 23h30, a família embarcou num avião privado operado pela empresa argentina Baires Fly S.A, com Guayaquil, no Equador como destino constante do plano de voo.
A rota escolhida pela aeronave é outro dos aspectos relevantes. Em vez de seguir directamente para território norte-americano, sobrevoando o Brasil, o avião deslocou-se para oeste, atravessando os espaços aéreos do Paraguai, Bolívia e Peru, antes de chegar ao Equador, sendo que a escolha de um trajeto mais longo terá tido uma finalidade: evitar o espaço aéreo brasileiro e uma eventual intervenção das autoridades nacionais.
A aeronave, um Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, fez escala em Guayaquil para reabastecimento, seguindo depois em direcção aos Estados Unidos, sobrevoando a região da América Central e das Caraíbas, tendo chegado na manhã de quarta-feira, 28 de Outubro, ao aeroporto de Opa-Locka, próximo de Miami.
CIA, Marco Rubio e Donald Trump: o que está por esclarecer
O ponto mais controverso do documento é a afirmação de que a operação teria sido concebida em colaboração entre a CIA, responsáveis norte-americanos e os serviços argentinos. A narrativa apresenta Marco Rubio como uma das figuras centrais do plano e sustenta que Donald Trump teria acompanhado a preparação da retirada de Flávio Bolsonaro.
Segundo o documento, a intervenção argentina teria sido organizada para evitar comprometer diretamente o Departamento de Estado norte-americano, existindo, contudo, uma distinção fundamental entre os elementos que são conhecidos e aqueles que continuam a ser alegações.
O governo dos Estados Unidos confirmou a disposição para conceder vistos a Flávio Bolsonaro, à mulher e às duas filhas, e o próprio Donald Trump também manifestou publicamente a sua disponibilidade para permitir a entrada da família.
Todavia, Marco Rubio negou, em declarações divulgadas ontem, sábado, 31 de Outubro, que a administração norte-americana tenha organizado ou facilitado diretamente a viagem. Mais: segundo o secretário de Estado, Washington tomou conhecimento da chegada de Flávio e decidiu autorizar a sua entrada, mas não participou na organização dos transportes – uma posição que contrasta com as com as revelações atribuídas pelo diário argentino Clarín a fontes próximas da operação.
A controvérsia não terminou com o desembarque em Miami. Deputados brasileiros solicitaram à Polícia Federal a investigação do possível envolvimento dos governos da Argentina e dos Estados Unidos, e a Justiça argentina também recebeu denúncias relacionadas com a eventual utilização de recursos públicos na operação.
Uma investigação sobre a entrada de Bolsonaro na Argentina foi arquivada, depois de as autoridades judiciais considerarem que não existiam elementos que demonstrassem ilegalidades naquele procedimento, permanecendo, contudo, outra investigação relacionada com a possível intervenção de funcionários públicos argentinos e a utilização de meios do Estado.
Uma operação que já provocou consequências diplomáticas
Por outro lado, as relações diplomáticas entre Brasília e Buenos Aires foram naturalmente afetadas, tendo o Ministério das Relações Exteriores brasileiro convocado a representante diplomática argentina para abordar o caso, isto logo depois do próprio Flávio Bolsonaro ter agradecido publicamente a Javier Milei a ajuda recebida, sem esclarecer exatamente em que consistiu essa assistência.

A conjugação dos elementos conhecidos permite concluir que a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil esteve longe de corresponder de uma simples viagem: a utilização de vários veículos, a circulação de informações contraditórias, a preparação de rotas aéreas alternativas, a participação de uma companhia argentina de aviação executiva e a presença de um dos principais assessores de Javier Milei constituem indícios relevantes de uma operação organizada.
O documento atribuído a fontes da comunidade dos serviços de informações a eu o 24Horas teve acesso acrescenta ainda uma dimensão muito mais sensível: a possível coordenação de serviços secretos estrangeiros, incluindo a CIA, para retirar do Brasil um candidato presidencial derrotado e visado por uma decisão judicial.
Mas as investigações entretanto conhecidas tornaram legítimas perguntas que ultrapassam a situação pessoal de Flávio Bolsonaro: quem pagou as aeronaves? Quem decidiu os respetivos planos de voo? Qual foi o papel efetivo de Santiago Caputo? Que conhecimento tiveram as autoridades argentinas e norte-americanas? E houve, ou não, participação de serviços de informações na preparação e execução da operação?
A resposta a estas questões poderá determinar se a fuga de Flávio Bolsonaro fica na história como um episódio invulgar da política brasileira ou como uma operação internacional com consequências nas relações entre alguns dos principais países do continente americano.
Por agora, há uma certeza: Flávio Bolsonaro saiu do Brasil, passou pela Argentina, fez escala no Equador e encontrou acolhimento nos Estados Unidos. A verdadeira dimensão da colaboração estrangeira que tornou possível essa fuga continua a ser a grande questão por esclarecer.

















