O senador brasileiro Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, está a ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeitas relacionadas com o financiamento de Dark Horse, filme que retrata a trajetória política do antigo chefe de Estado brasileiro.

O inquérito foi autorizado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a pedido da Polícia Federal. A investigação apura suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e evasão de divisas relacionadas com os recursos destinados à produção.

Flávio Bolsonaro é senador pelo estado do Rio de Janeiro e uma das principais figuras políticas da família Bolsonaro. Em 2026, é também candidato à Presidência do Brasil. O seu pai, Jair Bolsonaro, foi Presidente do Brasil entre 2019 e 2022 e é a figura central retratada no filme.

BANQUEIRO ESTÁ NO CENTRO DA INVESTIGAÇÃO

Um dos principais personagens do caso é Daniel Vorcaro, antigo proprietário e presidente executivo do Banco Master. A instituição financeira tornou-se alvo de uma ampla investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de irregularidades financeiras.

Segundo a investigação, Flávio Bolsonaro terá procurado diretamente Vorcaro para conseguir financiamento para Dark Horse. O senador reconheceu ter pedido dinheiro ao banqueiro, mas afirma que se tratava de financiamento privado destinado à produção do filme.

A Polícia Federal procura agora esclarecer a origem dos recursos, o percurso do dinheiro e a forma como os valores foram utilizados.

Um dos documentos encontrados durante a investigação previa um financiamento de 24 milhões de dólares, o equivalente a cerca de 134 milhões de reais. No entanto, os investigadores identificaram até agora transferências de aproximadamente 12,3 milhões de dólares, cerca de 63,7 milhões de reais.

A diferença entre o valor previsto no contrato e o montante efetivamente transferido é um dos pontos analisados pelas autoridades.

DINHEIRO PASSOU PELOS ESTADOS UNIDOS

Parte dos recursos relacionados com o financiamento passou pelo Havengate Development Fund, uma estrutura sediada nos Estados Unidos.

O fundo aparece ligado a Paulo Calixto, advogado próximo de Eduardo Bolsonaro, outro filho de Jair Bolsonaro e antigo deputado federal. Eduardo também vive nos Estados Unidos e aparece nas investigações relacionadas com a circulação dos recursos.

Outro nome importante é António Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. O empresário é apontado como operador financeiro de Vorcaro e terá participado de transferências relacionadas com o fundo norte-americano.

Freixo firmou um acordo de colaboração premiada com as autoridades e forneceu informações sobre operações financeiras que estão a ser analisadas pela Polícia Federal.

HÁ UMA SEGUNDA INVESTIGAÇÃO

O caso de Dark Horse ganhou uma dimensão ainda maior porque existem duas frentes de investigação diferentes relacionadas com o filme.

A primeira, conduzida por André Mendonça, concentra-se nos recursos ligados a Daniel Vorcaro e ao Banco Master, incluindo as transferências internacionais e a origem do dinheiro utilizado no financiamento.

A segunda está sob responsabilidade do ministro Flávio Dino, também do Supremo Tribunal Federal, e investiga suspeitas relacionadas com recursos públicos e emendas parlamentares que terão sido direcionados para estruturas ligadas à produção.

Nesta outra investigação, a Polícia Federal realizou uma operação que teve entre os alvos Mário Frias, antigo secretário de Cultura durante o Governo de Jair Bolsonaro e atualmente deputado federal pelo Partido Liberal.

A produtora Karina Gama, ligada à produção de Dark Horse, também foi alvo da operação.

Embora sejam investigações distintas, as duas têm o mesmo ponto de convergência: o filme que retrata Jair Bolsonaro e a origem dos recursos utilizados para viabilizar a produção.

SIGILO FOI PARCIALMENTE LEVANTADO

A existência da investigação contra Flávio Bolsonaro tornou-se pública no contexto da decisão do ministro André Mendonça de levantar o sigilo de 15 procedimentos relacionados com o caso Banco Master.

A decisão ocorreu depois de um pedido do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin.

O levantamento permitiu conhecer novos detalhes sobre as investigações envolvendo Vorcaro e pessoas próximas do antigo banqueiro. O inquérito específico relacionado com o financiamento de Dark Horse, contudo, continua sob sigilo.

Com a divulgação dos documentos, passaram a ser conhecidos detalhes sobre as relações financeiras entre os envolvidos e sobre a tentativa de financiar o filme com recursos ligados ao antigo controlador do Banco Master.

MILHÕES DE DÓLARES E MUITAS PERGUNTAS

A investigação coloca Flávio Bolsonaro no centro de uma apuração que envolve milhões de dólares, transferências internacionais, um banqueiro investigado e uma produção cinematográfica sobre o próprio pai do senador.

A Polícia Federal procura esclarecer por que razão Vorcaro aceitou financiar o projeto, qual era a origem dos milhões envolvidos, por onde o dinheiro circulou e quem efetivamente beneficiou dos pagamentos.

Também será necessário determinar se os recursos foram utilizados exclusivamente para a produção do filme ou se tiveram outras finalidades.

O caso é especialmente sensível porque envolve um candidato à Presidência do Brasil e uma figura política que pertence à família mais conhecida da direita brasileira.

Mais do que uma polémica em torno de um filme, Dark Horse tornou-se agora uma peça de uma investigação que cruza política, dinheiro, relações empresariais e o escândalo envolvendo o Banco Master.

E, à medida que novos documentos são revelados, aumentam as perguntas sobre a origem dos milhões, as relações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro e os interesses que estiveram por trás de um financiamento de dezenas de milhões de reais para contar a história política de Jair Bolsonaro.