A Polícia Federal brasileira abriu uma nova frente de investigação sobre o financiamento de 'Dark Horse', filme sobre Jair Bolsonaro, depois de identificar indícios de possíveis irregularidades envolvendo recursos de emendas parlamentares. A operação atingiu pessoas ligadas à produção e levou o Supremo Tribunal Federal a impor medidas cautelares contra um deputado federal que participou do projeto.
Entre os principais alvos está Mário Frias, ator e deputado federal pelo Partido Liberal (PL). Frias foi secretário especial da Cultura durante o governo Bolsonaro e atualmente exerce um mandato na Câmara dos Deputados. Ele também participou na produção de 'Dark Horse' como produtor-executivo e argumentista.
A investigação procura esclarecer o destino de recursos públicos destinados por Frias através de emendas parlamentares – verbas do Orçamento que deputados e senadores podem indicar para determinados projetos e entidades. Segundo a Polícia Federal, parte desses recursos pode ter seguido um percurso diferente daquele apresentado oficialmente, passando por entidades e empresas relacionadas com a produção do filme.
Outro nome central no caso é Karina Ferreira da Gama, produtora cinematográfica responsável por 'Dark Horse'. Ela está ligada à Go Up Entertainment e também ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à Academia Nacional de Cultura (ANC), entidades que receberam recursos provenientes de emendas parlamentares.
A Polícia Federal investiga se houve uma estrutura para direcionar recursos públicos para empresas ligadas aos envolvidos e se determinados serviços pagos com essas verbas foram realmente executados. Entre as suspeitas analisadas estão peculato, falsificação de documentos, branqueamento de capitais e organização criminosa.
Um dos elementos que chamou a atenção dos investigadores foi uma operação financeira envolvendo Karina Gama. Em janeiro de 2025, a produtora comprou um SUV híbrido BYD Song Plus, por R$ 102.190, pagos integralmente em dinheiro vivo. A operação foi comunicada ao Conselho de Controlo de Atividades Financeiras (Coaf), órgão brasileiro que recebe informações sobre operações financeiras consideradas suspeitas ou relevantes para a prevenção do branqueamento de capitais.
A comunicação ao Coaf, contudo, não significa que a compra tenha sido ilegal. O pagamento em numerário tornou-se um dos elementos analisados pelas autoridades dentro de uma investigação financeira mais ampla.
A operação da Polícia Federal, denominada 'Make Up', cumpriu dezenas de mandados de busca e apreensão em vários estados brasileiros e no Distrito Federal. A ação foi autorizada por Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal, que também determinou medidas cautelares contra os investigados.
Entre elas está a proibição de Mário Frias e de outros envolvidos de deixarem o Brasil, além da entrega dos passaportes às autoridades. Dino apontou risco de evasão e também determinou restrições de contacto entre pessoas investigadas no processo.
Frias reagiu à operação e classificou a investigação como uma 'cortina de fumo'. O deputado nega irregularidades e afirmou que acredita que o inquérito será arquivado.
O caso tem ainda uma outra frente de investigação relacionada com Flávio Bolsonaro, filho do antigo presidente. E envolve alegados recursos provenientes do antigo Banco Master, que teriam sido destinados ao financiamento de Dark Horse.
As duas investigações são distintas, mas convergem no mesmo projeto cinematográfico. De um lado, as autoridades analisam a utilização de emendas parlamentares e a atuação de Mário Frias e das entidades ligadas a Karina Gama. De outro, investigam a origem de recursos privados que terão sido destinados ao filme.
Até ao momento, nenhum dos investigados foi condenado. A Polícia Federal continua a recolher documentos e informações financeiras para determinar se houve efetivamente desvio de dinheiro público e qual foi o destino dos recursos.

















