O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes rejeitou qualquer ligação institucional do tribunal à crise que envolve o Banco Master, defendendo, em entrevista à Folha de S. Paulo, que o problema deve ser tratado no plano financeiro e regulatório, e não como um caso centrado nos poderes da República. Para o magistrado, a controvérsia “não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima”, numa referência ao centro financeiro de São Paulo.
Gilmar reagia às revelações sobre relações entre responsáveis do banco e figuras do universo judicial, nomeadamente contratos envolvendo familiares de ministros do STF. O decano do tribunal reconheceu a existência de questionamentos públicos, mas recusou a ideia de que o Supremo esteja no centro do caso, sublinhando que cabe à Comissão de Valores Mobiliários e ao Banco Central apurar eventuais irregularidades.
Questionado sobre a relação do ministro Dias Toffoli com o Banco Master e os contactos entre o banqueiro Daniel Vorcaro e magistrados, Gilmar sustentou que essas ligações não são, por si só, ilícitas e que qualquer suspeita deve seguir os canais legais próprios. “Quem cometeu crime ou irregularidade deve ser responsabilizado”, afirmou, afastando generalizações que atinjam o tribunal como instituição.
O magistrado também comentou a polémica em torno do código de ética do STF, surgida após críticas internas e externas sobre potenciais conflitos de interesses. Sem atacar diretamente colegas, Gilmar admitiu que o debate gerou desconforto, mas salientou que a unidade do tribunal é essencial e que o Supremo deve preservar a sua estabilidade institucional.
Outro ponto central da entrevista foi a defesa da manutenção do inquérito das fake news, cuja continuidade tem sido contestada por alguns sectores políticos e jurídicos. Gilmar Mendes considerou que o ambiente de radicalização e o acirramento eleitoral justificam a permanência da investigação, argumentando que ameaças contra instituições democráticas e campanhas organizadas de desinformação continuam presentes no Brasil.
O ministro comentou ainda a rejeição, pelo Senado, da indicação do procurador Jorge Messias para o STF, classificando o episódio como uma decisão “puramente política” e atribuindo o desfecho a falhas de articulação do Governo Lula. Segundo Gilmar, num sistema presidencial de coligação, a relação entre Executivo e Congresso exige negociação permanente, considerando que o Governo subestimou as dinâmicas parlamentares.
A entrevista revela um Gilmar Mendes simultaneamente preocupado com a imagem do STF e empenhado em separar o tribunal das turbulências políticas e financeiras que hoje marcam parte do debate público brasileiro.

















