Lula e Flávio Bolsonaro protagonizaram, na sexta-feira (23), o último debate presidencial antes da segunda volta das eleições brasileiras, marcada para domingo (25). No primeiro bloco, Flávio apresentou uma postura mais controlada, enquanto Lula pareceu cansado em alguns momentos. O confronto abordou temas como economia, segurança pública e transparência, mas acabou marcado por ataques pessoais, acusações e episódios que ultrapassaram a discussão de propostas.
Um dos momentos mais polémicos ocorreu quando Flávio fez uma referência ao dedo que Lula perdeu num acidente de trabalho, aos 17 anos. «Dá com uma mão e tira com os nove dedos», afirmou o senador, ao criticar a proposta de tarifa zero nos transportes públicos aos fins de semana. A frase provocou uma reacção indignada do Presidente e foi amplamente comentada nas redes sociais, com críticas à utilização de uma deficiência física como argumento político. Flávio acabou por pedir desculpa pela expressão, mas o episódio desviou a atenção das propostas para o ataque pessoal.
Outro momento marcante envolveu a mãe de Ana Clara, uma menina de cinco anos morta por um disparo de fuzil em Niterói, em 2021, que estava presente na plateia. Lula questionou Flávio sobre a sua posição em relação ao polícia militar acusado de ter efectuado o disparo fatal. O senador afirmou acreditar na inocência do agente e contestou a versão de que este teria sido responsável pela morte da criança. A mãe de Ana Clara considerou, porém, que Flávio não respondeu directamente à pergunta sobre a defesa do polícia. O episódio trouxe para o debate a dor da família e a discussão sobre a actuação policial e a segurança pública.
Flávio também questionou a transparência das informações bancárias de Lula, alegando que o Presidente não tinha disponibilizado todos os dados que considerava necessários. A acusação integrou o confronto sobre a divulgação de informações financeiras, mas a alegação deve ser analisada à luz dos dados concretos e das regras aplicáveis ao acesso a informações bancárias.
As declarações dos candidatos foram igualmente alvo de verificações de factos. A Agência Lupa identificou afirmações falsas, exageradas ou fora de contexto dos dois concorrentes. Entre os exemplos atribuídos a Flávio estão a alegação de que Lula defendeu que os ladrões de telemóveis não fossem presos por roubarem para comprar cerveja — uma distorção de uma declaração antiga do Presidente — e a afirmação de que um vídeo de Jair Bolsonaro a imitar pessoas com falta de ar durante a pandemia tinha sido retirado de contexto. A Lupa também contestou a atribuição da autorização das apostas online ao Governo Bolsonaro, uma vez que a actividade foi legalizada por lei em 2018, durante o Governo de Michel Temer.
O debate terminou com acusações de parte a parte, num confronto em que os ataques pessoais, a segurança pública, a transparência financeira e a circulação de informações falsas tiveram um papel central. A poucos dias da votação, os episódios reforçaram a importância de verificar as declarações dos candidatos e de distinguir os factos das acusações políticas.

















