Mário Centeno, de 59 anos, defendeu, esta terça-feira, dia 30, que o PS deve adotar uma postura de maior prudência na definição das suas propostas, apelando à "paciência" e alertando para o risco de transformar "utopias" em "distopias".

O antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal falava durante o debate ‘Custo de vida: o seu aumento e os seus impactos’, onde manifestou também reservas em relação à aplicação do IVA zero a um cabaz de bens essenciais, por considerar que a medida beneficia todos os consumidores, independentemente do rendimento ou dos produtos que adquirem.

"Devemos resistir até ao limite da nossa capacidade de intervir nos preços porque estamos a redirecionar a procura", afirmou, em resposta às questões colocadas pelos deputados socialistas. Ainda assim, admitiu que, em situações excecionais, possam ser adotadas medidas semelhantes às implementadas no início da crise inflacionista de 2022, desde que sejam "estritamente temporárias", para evitar que os apoios se prolonguem além do necessário.

O IVA zero sobre um conjunto de bens alimentares essenciais entrou em vigor na primavera de 2023, durante o Governo de António Costa, quando Fernando Medina era ministro das Finanças, como resposta ao aumento da inflação provocado pela guerra na Ucrânia.

Durante a intervenção, Centeno deixou ainda um apelo ao PS para que evite prometer soluções rápidas para problemas estruturais: "Não conseguimos ultrapassar esta crise, como ultrapassámos a pandemia, se não colocarmos na nossa agenda esta dimensão de entendimento de que isto não é para resolver num mês ou num ano."

Na sua opinião, áreas como a saúde e a educação são frequentemente marcadas por "muitas utopias", que "muito facilmente" se transformam em "distopias", gerando "grande frustração", cenário que, considerou, acaba por favorecer o crescimento dos movimentos populistas.

"Se colocarmos objetivos inalcançáveis, só vamos criar distorção e distopias", alertou, apontando como exemplo as sucessivas promessas de garantir médico de família a todos os utentes. Referiu ainda a crise da habitação, afirmando que "destruímos e aniquilámos o setor da construção civil e depois esperávamos que, quando tivéssemos rendimento para comprar casa, elas aparecessem".

Centeno concluiu reiterando que os problemas estruturais exigem tempo para serem resolvidos: "Não tenhamos a tentação de desenhar políticas que vão resolver os problemas nos próximos seis meses, porque isso não vai acontecer."