Investigadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificaram novas substâncias psicoativas em amostras de saliva recolhidas durante festas de música eletrónica no Brasil. O trabalho faz parte do Projeto Baco, desenvolvido pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox) da universidade em parceria com o governo federal.
Entre 2023 e 2025, os investigadores estiveram em 14 eventos realizados nos estados de São Paulo, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul. Em São Paulo, foram feitas recolhas em Araraquara, Assis, Campinas, Hortolândia, Mairiporã, São José dos Campos, Sorocaba e Taquaritinga. No total, foram analisadas 1.565 amostras de saliva, fornecidas voluntariamente e de forma anónima pelos participantes.
Entre as chamadas novas substâncias psicoativas identificadas estavam MDEA, desclorocetamina, dipentilona e metilona. A MDEA apareceu em 9,3% das amostras, enquanto a desclorocetamina foi encontrada em 3,1%, a dipentilona em 2,9% e a metilona em 2,4%.
A análise revelou ainda a presença de várias drogas já conhecidas. A nicotina foi encontrada em 72,3% dos exames, o MDA em 71,7%, o THC em 48,7% e o MDMA em 47,5%. Também foram identificadas cocaína em 22,2% das amostras e cocaetileno em 9,2%.
Segundo os investigadores, os resultados mostram que o policonsumo é frequente entre os participantes. A maior parte das amostras apresentava entre seis e sete substâncias diferentes.
Um dos objetivos do projeto é identificar substâncias que estejam a circular antes que sejam detetadas através de casos de intoxicação. As chamadas novas substâncias psicoativas podem resultar de pequenas alterações químicas feitas em moléculas já conhecidas, dificultando a sua identificação pelos métodos convencionais.
A investigação também revelou que muitos participantes não sabiam exatamente o que tinham consumido. Depois de receberem os resultados dos testes, alguns relataram que acreditavam ter consumido apenas uma determinada droga, quando as análises mostravam a presença de várias substâncias.
O trabalho da Unicamp pretende, desta forma, acompanhar as mudanças no mercado de drogas sintéticas e fornecer informação que possa ser utilizada pelas autoridades de saúde e segurança pública. Os investigadores consideram que as amostras recolhidas em festas funcionam como um indicador das substâncias que estão a circular no país.
A parceria entre a Unicamp e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) também contribui para o Sistema de Alerta Rápido Sobre Drogas, criado pelo Ministério da Justiça para melhorar a identificação de novas substâncias e a resposta a possíveis casos de intoxicação.

















