"A confusão tornou-se um caminho." Marisa Liz, de 43 anos, diz a frase sem dramatismo, quase como uma conclusão tranquila depois de anos a tentar perceber o que fazer com todas as perguntas que lhe ocupavam a cabeça. 'Relatos de um Coração Confuso', o novo álbum da cantora, nasce precisamente desse lugar: da dúvida, da inquietação e da recusa em fingir que a vida chega a uma determinada idade totalmente resolvida.

“O facto de não saber e ter tantas perguntas sem resposta em relação ao que eu queria fazer, ao estado em que nós estamos emocionalmente e mentalmente… a confusão, em vez de ser uma coisa negativa, acabou por me mostrar que eu se calhar não estava no caminho certo", começa por desabafar, em exclusivo ao 24Horas.
Ao longo da entrevista, a cantora fala da dúvida como quem fala de transformação. Crescer, diz, não trouxe respostas definitivas. Trouxe consciência: "Parece que tens uma determinada idade e tens de escolher tudo, fazer os planos todos para o resto da tua vida. Depois não é aceitável quando és adulto não saberes ou estares indeciso durante algum tempo. E eu percebi que o não saber não era uma fraqueza. É só porque tens muita coisa para viver."
Essa sensação atravessa todo o disco. Mais íntimo, mais orgânico e menos preocupado em impressionar, 'Relatos de um Coração Confuso' surge como o trabalho mais emocionalmente despido da artista.
Não houve uma estratégia rígida, nem a intenção de construir um determinado som. "Eu queria aprender, descobrir-me, desafiar-me. A produção foi sendo feita através de fantasia pura e de desenhos que eu fazia entre mim, o Gui e o Tiago para explicar emoções. Porque para mim a música fala. Aqueles instrumentos estão ali por um motivo, aquelas linhas têm um motivo, a pulsação tem um motivo", faz notar.
Durante quase dois anos, Marisa Liz foi recolhendo canções e emoções. Algumas nasceram de conversas longas com compositores, quase como sessões de terapia transformadas em música. “As músicas que estão aqui foram mastigadas emocionalmente por estas pessoas. Não foi ir buscar canções que estavam numa gaveta. Eu dizia-lhes aquilo que estava a sentir e eles escreviam como se tivessem lido o meu livro.”



'Coração Confuso' é a canção que mais lhe custa cantar. Não por dificuldade técnica, mas porque é a primeira vez que fala do pai numa música, que morreu quando tinha apenas oito anos. "Não é difícil… é só ir para um sítio emocional que me dá saudades. Eu não ando por casa a cantar, portanto quando canto vou emocionalmente com tudo."
Também 'Desistir Jamais' funciona quase como uma declaração de sobrevivência. "Já estive à beira de mandar a toalha ao chão várias vezes”, admite. E, com um olhar determinado, acrescenta: "Mas não há outra opção. Eu faço música, tenho uma família e tenho amigos porque eu não quero só sobreviver, eu quero viver a sério."
O Brasil surge como outra peça essencial deste disco. Mais do que influência musical, é um território emocional. “Quando comecei a descobrir a cultura musical brasileira com mais profundidade, foi um planeta onde entrei e construí uma casa. Era impossível não trazer isso para este álbum.”
A colaboração com Camané em 'Gente Aberta', versão de um tema de Erasmo Carlos, nasceu dessa procura por autenticidade. “Mais ninguém podia trazer aquilo porque mais ninguém é o Camané. O que ele transmite é verdade. É alguém que não tem medo de ser ele próprio a cantar", assegura.
Ao longo da conversa, Marisa Liz regressa várias vezes à ideia de liberdade. Cresceu a sentir que era demasiado: “Demasiado intensa, com sonhos a mais e perguntas a mais.” Durante anos, isso transformou-se em medo. “Eu fiquei com medo de ser quem era porque sentia que aquilo que eu era não cabia no mundo.” Hoje, porém, parece mais reconciliada consigo própria. Já não sente necessidade de provar nada aos outros. “Só a mim mesma. Confiar no meu cérebro, nos meus sonhos e continuar fiel àquilo que eu sou.”
Em 2026, regressa à estrada com uma nova digressão, novo cenário e um espectáculo construído à volta deste álbum. “Venham ter connosco”, diz no final. E percebe-se que o convite vai além da música. É um convite para entrar, durante uma hora, dentro deste coração confuso que finalmente aprendeu a não fugir de si próprio.

















