Há militares que se distinguem na carreira com louvores e condecorações. Não é o caso do coronel Carlos Coelho. Na sua folha de serviços não faltam acusações – desde o furto de roupa num centro comercial a nove crimes de abuso de poder e outros tantos por falsificação. Acaba de ser nomeado para o SIRESP, a sensível rede de comunicações de emergência.
A controversa nomeação de Carlos Coelho é a prova de que uma extensa bula de acusações judiciais pode funcionar como uma carta de recomendação. Mas o próprio SIRESP, numa ‘nota de análise’ à escolha do polémico militar, a que o 24Horas teve acesso, chama a atenção para os critérios de seleção adotados e levanta mesmo dúvidas sobre a reputação do coronel Coelho. Os analistas, apesar de desconhecerem o resultado final das acusações, consideram indispensável a “verificação prévia da idoneidade do candidato”, para mais “tratando-se da contratação para uma empresa pública que já apresenta um historial controverso”.
A contratação do coronel Carlos Coelho foi uma escolha do próprio presidente do conselho de administração, general Viegas Nunes – cuja nomeação pelo ministro Luís Neves, em maio, teve a firme oposição do secretário-geral adjunto do Ministério da Administração Interna, António Pombeiro, um histórico do Serviço de Informações de Segurança (SIS), que se demitiu enfastiado e uma mão a tapar o nariz. As indigitações de Viegas Nunes e de Carlos Coelho parecem ter obedecido a um critério simples: para um sistema tantas vezes associado ao caos, nada como alguém com currículos igualmente atribulados.
O ‘capitão Herrera’
O coronel Carlos Coelho é conhecido na GNR, onde fez boa parte da carreira, como ‘capitão Herrera’. A alcunha ainda hoje o persegue como uma verruga que se lhe agarrou à pele. O cognome deve-se ao facto de ter sido acusado do furto de roupa – uma camisa - da marca Carolina Herrera, em novembro de 2013, no Freeport de Alcochete.

Nesta altura, ainda com as divisas de capitão, fora autorizado pela GNR a cumprir uma descansada comissão de serviço como diretor da Polícia Municipal de Cascais, cargo que ocupou durante quatro anos, de 2013 a 2017. Isto depois de ter sido envolvido numa longa polémica na própria GNR, onde, primeiro surgiu como denunciante de uma suposta rede de favorecimentos, e a seguir, chegou a ser acusado de descaminho de material informático.
A nomeação para Cascais teve o prestimoso dedo e respetiva cunha do seu ‘padrinho’, o major-general Carlos Chaves, outra personagem useira e vezeira em protagonizar situações tão caricatas quanto polémicas que lhe têm valido amargos dissabores – como a sova que apanhou do tenente-coronel Brandão Ferreira no estacionamento de um centro comercial de Algés.
À frente da Polícia Municipal de Cascais, Carlos Coelho esmerou-se – tanto que não deixou grandes saudades no concelho. “Servia-se do cargo para tirar dele benefícios pessoais”, acusa uma fonte que não quer ser identificada. Nos quatro anos como ‘xerife’ de Cascais, o então ainda capitão acumulou um largo inventário de acusações. Foi então acusado pelo Ministério Público de, nada menos nada mais, do que 18 delitos: nove por abuso de poder e outros tantos por falsificação de documentos.
É este militar com tão invejável folha de serviços tisnada a vermelho que acaba de ser nomeado para o SIRESP, a rede que deve garantir comunicações seguras em situações de emergência. Talvez esteja no sítio certo. O SIRESP, desde que foi criado em 2005, numa parceria público-privada com o BPN e em que o Estado foi enganado, tem habituado bombeiros e demais agentes da proteção civil a arreliadoras falhas de sinal. Mais falha menos falha, a nomeação do ‘capitão Herrera’ é só mais uma.
















