As declarações de Nuno Melo sobre o alegado crescimento eleitoral do CDS estão a provocar algum incómodo no PSD e no próprio governo. O líder centrista afirmou, durante a ‘rentrée’ do partido, em Albergaria-a-Velha, onde o partido juntou pouco mais de uma centena de pessoas, que um estudo de opinião recente indicava que o CDS, caso concorresse sozinho às legislativas, poderia quadruplicar o resultado de 2022 e eleger sete ou oito deputados.

Nas eleições de janeiro de 2022, então liderado por Francisco Rodrigues dos Santos, o CDS obteve apenas 1,6% dos votos e perdeu toda a representação parlamentar. Quadruplicar esse resultado significaria alcançar aproximadamente 6,4%, colocando o partido num patamar próximo da Iniciativa Liberal e acima de várias forças atualmente representadas na Assembleia da República.

O problema é que Nuno Melo não identificou a empresa responsável pelo estudo, a entidade que o encomendou, as datas do trabalho de campo, a dimensão da amostra ou a respetiva margem de erro. Também não explicou de que forma os alegados 6,4% seriam convertidos em sete ou oito mandatos.

Sondagem? Só se for um estudo interno...

O 24 Horas não encontrou, entre as sondagens nacionais recentemente divulgadas, qualquer estudo que tenha avaliado separadamente PSD e CDS. Os barómetros conhecidos apresentam a intenção de voto na Aliança Democrática como um todo, sem permitirem determinar qual seria o resultado individual de cada parceiro da coligação.

Tudo indica, portanto, que Nuno Melo se referia a um estudo interno, eventualmente encomendado pelo próprio CDS, que nunca foi divulgado publicamente. Sem ficha técnica, resultados completos e distribuição dos votos pelos círculos eleitorais, os números não podem ser confirmados de forma independente.

Créditos: CDS/Isabel Santiago

As controversas declarações de Nuno Melo, invocando uma ‘sondagem-fantasma’, tiveram lugar na ‘rentrée’ centrista em Albergaria-a-Velha que juntou pouco mais de uma centena de apoiantes

Também a projeção de sete ou oito deputados levanta dúvidas. Em Portugal, uma percentagem nacional não se converte automaticamente num determinado número de mandatos. O resultado depende da concentração territorial dos votos, da dimensão de cada círculo e da aplicação do método de Hondt.

Declarações “disparatadas”

As declarações causaram um visível mal-estar em setores do PSD e até dentro do próprio governo. Fontes social-democratas ouvidas pelo 24Horas classificaram-nas como “disparatadas”, considerando que transmitem a ideia de que o CDS poderá estar eleitoralmente melhor fora da AD e que o PSD beneficia desproporcionalmente da coligação: “Até para o próprio CDS, que na prática não existe, as declarações são de uma irresponsabilidade gritante”, desabafou um deputado social-democrata. Num momento em que Luís Montenegro vive um momento crítico na sua governação, com as sondagens a colocar a coligação liderada pelo seu partido em terceiro lugar, atrás do PS e do Chega, e quando insiste em apresentar a AD como um projeto estável, a evocação de uma sondagem-fantasma é vista como uma forma de pressão negocial. Nuno Melo pretende demonstrar que o CDS não depende do PSD para sobreviver. Mas, sem revelar o estudo, nem a sua origem, acabou por transformar uma afirmação de força numa nova fonte de desconfiança entre os parceiros da coligação

Créditos: CDS/Isabel Santiago