Nuno Melo chegou à comissão parlamentar de Defesa com a gravidade que a ocasião recomendava — e que um ministro da Defesa, de resto, dificilmente dispensaria. Rosto fechado, passo composto e a farta cabeleira branca cuidadosamente aprumada, que lhe empresta um ar adicional de respeitabilidade institucional, entrou numa audição onde o esperavam os deputados — e as perguntas a que, durante quase cinco semanas, o 24 Horas tentou em vão obter resposta.

Foi difícil arrancar-lhe a primeira resposta. Só perante a insistência do deputado Nuno Simões de Melo, militar na reserva eleito pelo Chega, a comissão ficou a conhecer o custo efetivo do negócio: as três fragatas não vão custar 3,9 mil milhões de euros. Somados os juros do financiamento através do programa europeu SAFE, pagos ao longo de 40 anos, a fatura ascenderá, pelo menos, a 7,68 mil milhões de euros – como, de resto, o 24 Horas já tinha revelado.

Nuno Melo não foi sozinho. Fez-se acompanhar pelo secretário de Estado Adjunto, Álvaro Castelo Branco, e pelo contra-almirante António Mateus, subdiretor-geral de Armamento e Património da Defesa Nacional — e foi a ele que o ministro pediu que desse a primeira resposta.

O almirante, esse, vinha preparado. A pedido de Nuno Melo, o presidente da comissão autorizou a projeção de uma série de slides sobre o programa SAFE. E foi assim, projetada num ecrã da sala, que começou finalmente a aparecer alguma da informação que, até então, o Ministério da Defesa mantivera fora do alcance do 24 Horas.

António Mateus fez, no entanto, uma ressalva: os 7,68 mil milhões de euros são uma estimativa. Se, ao longo dos 40 anos do financiamento, houver períodos de inflação particularmente elevada, por exemplo, a fatura poderá subir. Ainda assim, garantiu o contra-almirante, as contas foram feitas com a prudência que um compromisso desta dimensão e duração exige. Por isso, mesmo num cenário mais desfavorável, o custo final deverá, segundo explicou, ficar próximo dos 7,68 mil milhões agora apresentados.

Uma escolha militar

Pela primeira vez, a conta apareceu no ecrã, tim-tim por tim-tim. Cada uma das três fragatas tem um preço base de 863 milhões de euros, ao qual se somam 63 milhões pelas alterações exigidas pela Marinha portuguesa: capacidade para enfrentar drones e mísseis balísticos, defesa contra submarinos, sensores de última geração e sistemas de mísseis antiaéreos. No total, e contando apenas com os navios e as modificações pedidas pela Marinha, a fatura apresentada ascende a 2,880 mil milhões de euros.

Mas os navios são apenas uma parte da conta. Aos 2,880 mil milhões de euros somam-se mais 461 milhões para a manutenção das fragatas ao longo do seu ciclo de vida, 310 milhões para armamento, 130 milhões para adaptar a Base Naval do Alfeite à chegada dos novos navios e 95 milhões para a capacitação e treino das guarnições. Só estas quatro parcelas acrescentam mais 996 milhões de euros ao programa.

Quem escolheu, afinal, as fragatas italianas? Nuno Melo garantiu aos deputados que a decisão foi eminentemente técnica. “Não houve qualquer decisão política”, afirmou.

Foram analisadas cinco propostas: uma do Reino Unido, uma de Espanha, uma de França, uma dos Países Baixos e, por fim, a italiana. Uma comissão militar, constituída por elementos da Direção-Geral de Armamento e da Marinha, afastou quatro das candidaturas numa primeira fase e deixou na corrida apenas duas: a proposta francesa e a da Fincantieri. Foi entre essas duas que acabou por ser escolhida a fragata italiana.

O próprio programa SAFE impunha, desde logo, uma condição: o financiamento só podia abranger equipamento europeu. Algumas propostas caíram porque integravam armamento de origem norte-americana; outras porque os navios apresentados não tinham capacidade para receber todo o conjunto de sistemas e equipamentos exigidos pela Marinha portuguesa. No confronto final entre a proposta francesa e a italiana, venceu a Fincantieri.

Ministro magoado

Ao longo da audição, Nuno Melo voltou repetidamente a um outro tema: as críticas de que disse ter sido alvo por causa do processo das fragatas. Queixou-se de ter sido “injuriado” e “difamado” e regressou várias vezes a essa ideia, mesmo quando os deputados procuravam recentrar a discussão nos detalhes do negócio.

A certa altura, a audição já não parecia apenas a de um ministro chamado ao Parlamento para explicar um negócio de Estado. Parecia também uma espécie de muro das lamentações, com Nuno Melo a enumerar as ofensas, acusações e injustiças de que considera ter sido alvo.

Mas a grande mágoa parecia reservada ao 24 Horas — o jornal que, no exercício mais elementar do escrutínio jornalístico, lhe enviou 49 perguntas sobre um negócio de 3,9 mil milhões de euros e não obteve resposta a nenhuma delas. Na sua longa ladainha de queixas, Nuno Melo referiu-se ao jornal como “aquela coisa escrita”.

A expressão diz talvez mais sobre a relação do ministro com as perguntas incómodas do que sobre o jornal a que decidiu não responder.