Durante décadas, relatos sobre a existência de um misterioso veado de pelagem escura circularam entre moradores e pantaneiros. O animal era conhecido popularmente como “veado preto” e fazia parte das histórias da região. Agora, a ciência confirmou que os relatos tinham fundamento: investigadores documentaram, pela primeira vez, casos de melanismo no cervo-do-pantanal.

A descoberta foi feita por investigadores da Associação Onçafari em parceria com o pesquisador Walfrido Tomas, da Embrapa Pantanal. O estudo foi publicado em 2026 na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos e descreve os primeiros registos científicos de cervos-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) com essa alteração de pigmentação.

O primeiro caso documentado ocorreu em 26 de fevereiro de 2021, na Caiman Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Uma fêmea adulta foi fotografada com uma pelagem muito mais escura do que a coloração castanho-avermelhada normalmente característica da espécie.

Apesar de décadas de pesquisas e levantamentos sobre o cervo-do-pantanal na região, aquele foi o primeiro indivíduo com melanismo oficialmente registado na literatura científica. Histórias sobre animais semelhantes, no entanto, já eram conhecidas entre os habitantes do Pantanal.

Alteração rara na coloração

O melanismo é uma alteração de pigmentação associada à produção excessiva de melanina, fazendo com que a pelagem fique significativamente mais escura. Não se trata de uma nova espécie: os chamados “veados pretos” continuam a ser cervos-do-pantanal, mas apresentam uma característica de coloração incomum.

Antes desta descoberta, já existiam registos de outras alterações de pigmentação na espécie, como o albinismo e o leucismo. O melanismo, contudo, ainda não tinha sido documentado cientificamente no cervo-do-pantanal.

Os investigadores também encontraram animais melânicos no Cerrado, no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, localizado entre Minas Gerais e a Bahia. O trabalho utilizou imagens obtidas por armadilhas fotográficas e observações diretas dos animais.

Entre janeiro de 2022 e fevereiro de 2026, as câmaras permaneceram ativas durante 61.830 noites no parque. Nesse período, foram obtidos 31 registos independentes de cervos-do-pantanal, três dos quais correspondiam a indivíduos melânicos. A análise das imagens permitiu identificar pelo menos dois machos diferentes com a coloração escura.

Além das imagens, os investigadores fizeram 12 observações diretas de cervos-do-pantanal na área. Oito desses avistamentos envolveram animais melânicos. Os dados chamaram a atenção da equipa porque indicam uma frequência aparentemente elevada da característica naquela população.

Investigadores ainda procuram respostas

A concentração de animais melânicos no Cerrado levantou novas perguntas sobre a genética da população. Os investigadores consideram a possibilidade de fatores como isolamento, deriva genética e endogamia — reprodução entre indivíduos geneticamente próximos — estarem relacionados com a manifestação do melanismo.

A hipótese, contudo, ainda não está comprovada. Os próprios investigadores destacam que são necessários mais estudos para determinar se existe efetivamente uma relação entre o isolamento da população e a maior frequência de animais com pelagem escura.

A descoberta também reforça a importância do acompanhamento das populações de cervo-do-pantanal. A espécie enfrenta ameaças relacionadas com a perda e fragmentação do habitat, a redução de áreas húmidas e a pressão humana.

Para os investigadores, os novos registos mostram como o acompanhamento de longo prazo pode revelar características que passaram despercebidas durante décadas e contribuir para compreender melhor a diversidade genética e os desafios de conservação da espécie.

Assim, o que durante gerações foi tratado como uma história do Pantanal ganhou agora uma confirmação científica: o misterioso “veado preto” existe, mas não é uma espécie diferente. É um cervo-do-pantanal que apresenta uma rara alteração de pigmentação conhecida como melanismo.