O primeiro debate televisivo das presidenciais brasileiras, realizado este domingo pela Band, ficou marcado pelas ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, os dois candidatos que lideram as sondagens. Mas também serviu para confirmar uma das características mais evidentes desta campanha: o estilo agressivo, provocador e frequentemente insultuoso de Renan Santos, candidato do Missão.

Renan chegou aos estúdios da Band já disposto a transformar as ausências dos adversários num acontecimento mediático. Levou consigo duas fraldas, uma com o nome de Lula e outra com o de Flávio Bolsonaro, numa encenação destinada a acusar ambos de medo. Perante os jornalistas, classificou-os como “dois imbecis, corruptos” e “medrosos”.

A provocação continuou no estúdio. Já com a missão no ar, Renan dirigiu-se aos púlpitos vazios dos dois principais adversários e chamou Lula e Flávio de “covardes” e “canalhas”. Mais tarde, foi ainda mais longe ao atacar não apenas Lula, mas também parte do eleitorado lulista, que acusou de estar a “rifar” o futuro do Brasil, acrescentando que não queria esses votos. 

Durante o debate, ‘embalado’, Renan chegou mesmo a apelidar Flávio de “cagão” e “cachorrinho”, enquanto Lula voltou a ser chamado de “bêbado” e de “ladrão”. A violência verbal levou mesmo Augusto Cury, também candidato presidencial, a criticar publicamente a agressividade do adversário, dizendo que aquela postura o “assombrava”.

Não se trata de um episódio isolado. A truculência tornou-se uma das marcas da candidatura de Renan Santos. No início de agosto chamou Flávio Bolsonaro de “farsante, fraco e corrompido” e chegou a utilizar contra ele o termo ofensivo “mongoloide”. Lula foi então descrito como um “cachaceiro senil”.

Duas semanas depois, no lançamento oficial da campanha, Renan voltou à carga. Chamou Lula de “bêbado”, atacou Jair Bolsonaro como “farsante” e “falso Messias” e fez acusações contra Flávio Bolsonaro. Nesse mesmo comício apareceu de colete à prova de bala e utilizou uma linguagem particularmente violenta ao prometer “devastar” as organizações criminosas.

A estratégia parece deliberada. Sem o peso eleitoral, os recursos e a exposição televisiva dos principais candidatos, Renan aposta fortemente nas redes sociais, nas frases de choque, nas encenações e numa espécie de marketing político de guerrilha. A própria campanha procura apresentar a agressividade como autenticidade, enquanto adversários veem nela uma degradação do debate político. A Folha de S.Paulo refere que o candidato acumula oito processos por injúria e difamação.

Na Band, Renan tinha a oportunidade de mostrar uma dimensão mais presidenciável, mas preferiu, porém, manter a fórmula que tem utilizado desde o início: confronto, insulto, espetáculo e frases concebidas para rapidamente se transformarem em vídeos virais. Num debate esvaziado pelos dois favoritos, foi provavelmente quem mais conseguiu chamar a atenção — embora a questão que fica seja se esse protagonismo se traduzirá também em votos.