O executivo camarário de Vila Real de Santo António, presidido pelo socialista Álvaro Araújo, volta a demonstrar que a inovação na gestão dos dinheiros públicos não conhece limites. Enquanto outras autarquias se perdem em banalidades como estradas, habitação, escolas ou saneamento, esta câmara algarvia decidiu concentrar-se no essencial: garantir um abastecimento estratégico de 900 garrafas de vinho do Porto ‘tawny’, 900 garrafas de tinto alentejano e mais de uma tonelada de bacalhau.
Álvaro Araújo não se ficou pela ‘pinga’ e o ‘fiel amigo’ das águas frias da Noruega. Através de um contrato de cerca de 74.500 mil euros (91.600 com IVA), pago pelos contribuintes, assegurou o fornecimento de um vastíssimo rol de mercearias diversas, do azeite ao grão-de-bico, do feijão branco ao atum em posta, das salsichas em lata aos queijos – a que ele chama “fornecimento contínuo de bens alimentares”.


Das duas uma: ou o presidente da câmara receia uma crise de subsistência em Vila Real de Santo António e, precavido, está a encher a despensa camarária – ou quer transformar qualquer receção institucional numa festa de casamento ou num congresso gastronómico.
Mas o verdadeiro espetáculo começou quando Álvaro Araújo tentou explicar o destino desta impressionante reserva estratégica de mantimentos e álcool.
A pergunta partiu do vereador Joel Ferreira da Cruz, da oposição social-democrata, sobre a utilidade pública de comprar 1.800 garrafas de vinho com o dinheiro dos contribuintes. O autarca justificou prontamente o concurso público em reunião de câmara: os produtos destinavam-se aos cabazes de Natal distribuídos em dezembro de 2025. A explicação parecia sólida até colidir com um pormenor irrelevante: o contrato só foi assinado em maio de 2026.
Confrontado com esta pequena inconveniência cronológica e a duvidosa legalidade de pagar através de um contrato celebrado em 2026 um fornecimento do ano anterior, o presidente embrulhou-se numa gaguez de contradições que alguns observadores já classificam como uma homenagem involuntária ao teatro do absurdo.
O vídeo da reunião de câmara revela como Álvaro Araújo, atrapalhado, tropeça nas suas próprias palavras. Perante a simples pergunta se o concurso é para pagar o cabaz de Natal do ano passado, quando a câmara não tinha para mandar pagar um cego, ou se é para asseguras o cabaz deste ano – o presidente perde-se numa incompreensível gaguez de contradições, como se diz na vila, “mais enrolado do que um choco”. A explicação de Álvaro Araújo é de ir às lágrimas.
Primeiro, afirmou que o concurso "só poderia ser para esse fim" – o dos cabazes. Imediatamente a seguir: “Nem lhe estou a dizer que é para esse... Obviamente, que só poderá ser para um fim parecido… pode ser ou pode não ser".
Vendo-se perdido, a afundar-se mais depressa que um prego atirado à água, Álvaro Araújo ensaiou uma manobra tão eficaz com fazer marcha-atrás em ponto morto. Segundo o autarca, o contrato poderá também servir para apoiar as ocupações de verão e os campos de férias das crianças.
A revelação deixou a oposição sem palavras. Durante décadas, pedagogos, nutricionistas e especialistas em infância procuraram novas formas de alimentar jovens durante as férias escolares. Nenhum deles imaginou que a resposta passava por 900 garrafas de tinto alentejano e outras tantas de vinho do Porto. Quer Álvaro Araújo alimentar a juventude do concelho com sopas de cavalo cansado?
O que se sabe é que o contrato foi adjudicado à firma ‘Superalentejo, Supermercados’. A empresa é tão alentejana como a pizza Marguerita. Tem sede em Vila Real de Santo António e explora o Intermarché local.

















