O Conta Lá muda de mãos na gestão, acumula dívidas e salários em atraso e prepara uma profunda reestruturação. Mas, no meio da tempestade, há uma personagem que parece procurar desaparecer da fotografia: Maurício Ribeiro, o homem que, apesar de Sérgio Figueiredo ter sido durante meses o rosto público do canal, era afinal o seu principal acionista e verdadeiro patrão.
Através da Baú d’Iniciativas, que detinha 67,3 por cento do Conta Lá, Maurício controlava a maioria do projeto. E controlava também 95% da própria Baú. Ou seja: por detrás das caras conhecidas que apareciam no ecrã, era Ribeiro quem tinha a posição dominante no capital e acumulava essa condição com as funções de COO e membro da Comissão Executiva.
Agora saiu da gestão. A assembleia iniciada a 6 de agosto e concluída dias depois entregou a condução do canal a uma nova comissão de gestão, enquanto se prepara um aumento de capital que poderá chegar aos 5 milhões de euros. Maurício desaparece assim da primeira linha, embora não exista, até agora, confirmação pública de que tenha vendido a sua posição ou deixado de controlar a Baú.
Uma retirada particularmente relevante perante o seu controverso ‘passado empresarial. Maurício Ribeiro esteve ligado à Just Cine e à Just Up, esta última declarada insolvente depois do desastre financeiro que envolveu a produção de Ministério do Tempo. Em 2017, Luís Valente acusou-o publicamente de alegados desvios de verbas; em 2018, a RTP e administradores da estação apresentaram queixa relacionada com alegada falsificação de contratos e assinaturas. Ribeiro sempre rejeitou as acusações e, em direito de resposta posterior, contestou ter sido acusado criminalmente de burla.
Um adeus que soou a ‘deserção’
Mais recentemente, o 24 Horas revelou que a Mau Mau Mia, outra produtora ligada a Maurício Ribeiro e posteriormente detida pelo próprio Conta Lá, enfrentava 12 processos de execução de dívidas num valor próximo dos 600 mil euros.
Mas Maurício não é o único a abandonar o convés. Há semanas, Sérgio Figueiredo também ‘desertou’ do projeto que fundou e de que foi principal rosto público, anunciando em julho: “Não é o fim do projeto, é simplesmente o meu fim nele”. Uma saída quando já existiam salários em atraso, dívidas e necessidade urgente de reestruturação.

Há, contudo, um detalhe importante: Figueiredo não era apenas gestor. Era também acionista, através da Plataforma Coerente, que detinha 28,8 por cento do Conta Lá. E essa sociedade pertence 70% a Sérgio Figueiredo e 30% a Margarida Pinto Correia, sua companheira e também ligada ao projeto.
Ou seja: saem os gestores, mas os sócios não desapareceram necessariamente. Maurício Ribeiro abandona a gestão; Sérgio Figueiredo faz o mesmo; mas falta saber quem continuará no capital depois da operação em curso. E é precisamente aí que está a questão: quem vai pagar a conta do Conta Lá? Os novos investidores, os atuais acionistas, os fornecedores e trabalhadores que ficaram à espera — ou aqueles que agora procuram escapar entre os pingos da chuva?

















