As barragens do Ndúe e Calucuve, inauguradas no Cunene, representam muito mais do que uma resposta aos ciclos de seca que durante décadas castigaram o Sul de Angola. Pela dimensão do investimento, capacidade de armazenamento e impacto esperado sobre populações, agricultura e pecuária, estas infraestruturas começam também a assumir um importante valor económico e geopolítico para o país.

Os dois projetos integram o Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul de Angola, o PCESSA, lançado por decisão do Presidente João Lourenço depois de, em 2019, ter constatado diretamente as dificuldades enfrentadas pelas populações da região no acesso à água, sendo que o programa está avaliado em cerca de 4,2 mil milhões de dólares e deverá estender-se também às províncias da Huíla e do Namibe.

Duas barragens que são um “ativo estratégico”

No terreno, uma das figuras mais diretamente associadas à concretização desta estratégia tem sido João Baptista Borges. Enquanto ministro da Energia e Águas, acompanhou o desenvolvimento das grandes infraestruturas hídricas do Sul, desde o Canal do Cafu às barragens agora inauguradas, transformando o combate à seca num dos principais dossiers do Ministério. O próprio governante classifica Ndúe e Calucuve como “activos estratégicos” para o desenvolvimento da região Sul.

O Presidente João Lourenço, à direita na foto, e o ministro João Baptista Borges: um definiu a orientação política, o outro executou a estratégia no terreno

Mas a ambição vai muito além do abastecimento de água. João Lourenço considera que estas infraestruturas deverão criar condições para novos investimentos públicos e privados, desenvolvimento agropecuário, fixação das populações e redução dos conflitos entre criadores de gado, frequentemente provocados pela disputa das escassas fontes de água.

Dimensão geopolítica

É precisamente nesta fase que o projeto ganha também dimensão geopolítica. Prova disso mesmo é João Lourenço ter anunciado a disponibilidade de Angola para partilhar com a Namíbia e com a República Democrática do Congo a experiência adquirida na exploração e gestão dos recursos hídricos. A declaração foi feita no Cunene, após a inauguração das duas barragens, numa cerimónia significativamente acompanhada pelo Presidente congolês Félix Tshisekedi e por representantes da Namíbia.

O sinal político é relevante. Angola deixa de apresentar a política da água apenas como solução para um problema interno e começa a projetá-la como conhecimento e capacidade que pode colocar ao serviço da cooperação regional.

Num continente em que água, energia e produção alimentar tenderão a ganhar peso crescente nas relações entre Estados, possuir capacidade para captar, armazenar, distribuir e gerir recursos hídricos representa também capacidade de influência.

João Lourenço define a orientação política; João Baptista Borges tem assumido a condução de um dos dossiers técnicos mais exigentes dessa estratégia. Se a água armazenada conseguir agora gerar agricultura, pecuária, agroindústria, emprego e investimento, o Cunene poderá deixar de ser visto essencialmente como símbolo da seca para passar a constituir uma plataforma de desenvolvimento do Sul.

E Angola terá conseguido transformar uma vulnerabilidade histórica num ativo económico — e também geopolítico.