Volodymyr Zelensky, de 48 anos, foi chamado a depor como testemunha num processo judicial relacionado com o acidente do Elevador da Glória, em Lisboa, por requerimento da família de uma das vítimas mortais da tragédia.

A ação foi interposta pelo marido e pela filha de Ana Paula, de 49 anos, uma das 16 vítimas do descarrilamento, ocorrido a 3 de setembro de 2025. Os familiares exigem uma indemnização de cerca de um milhão de euros à Carris, à seguradora da empresa e à entidade responsável pela manutenção do elevador.

Segundo o jornal Público, que avançou com a informação, o presidente ucraniano foi arrolado como testemunha por escrito devido às mensagens públicas de condolências que dirigiu às vítimas e às suas famílias após o acidente. Para os autores da ação, esse gesto demonstra que o caso teve um impacto "que extravasa largamente" o de um acidente comum.

"Para a família de Ana Paula, o facto de Zelensky, presidente de um país em guerra, ter lamentado as mortes demonstra o impacto excecional do caso", lê-se na argumentação apresentada.

Os familiares defendem ainda a necessidade de uma reparação moral por parte da Carris, incluindo a publicação de um pedido de desculpas em órgãos de comunicação social de circulação nacional. Consideram que essa medida representa "a forma adequada de compensação moral pelos danos não patrimoniais sofridos e de reconhecimento institucional da gravidade do evento".

Na ação, assinada pelos advogados Nuno Pinto Coelho de Faria e Carolina Patinhas, citada pelo mesmo jornal, é também questionada a confiança dos cidadãos na segurança dos transportes públicos. "Os utentes e consumidores de transportes públicos (...) têm uma expectativa legítima de que os equipamentos disponibilizados para transporte de pessoas se encontrem em condições técnicas adequadas", refere o documento.

A família sustenta que existiram falhas graves na manutenção e fiscalização do equipamento, apoiando-se nas conclusões do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF), que identificou deficiências técnicas e organizacionais na operação do elevador.

Segundo a ação, o Estado e o município de Lisboa terão falhado na supervisão de um meio de transporte histórico utilizado diariamente por milhares de pessoas, deixando a segurança dependente da entidade operadora e de empresas subcontratadas.

O processo detalha ainda os momentos de angústia vividos após o desaparecimento de Ana Paula. A ausência da vítima foi inicialmente detetada por uma amiga, após esta não comparecer a um encontro combinado nem responder ao telemóvel. Mais tarde, o marido, Isaque, só tomou conhecimento da gravidade da situação após o alerta de acidente.

Após várias horas de incerteza, a família deslocou-se a hospitais e autoridades até ser informada pela Polícia Judiciária de que Ana Paula era uma das vítimas mortais do descarrilamento.

O acidente, recorde-se, ocorreu quando uma das cabinas embateu violentamente contra um edifício, provocando 16 mortes e mais de 20 feridos, entre portugueses e estrangeiros. Na sequência da tragédia, a Câmara Municipal de Lisboa suspendeu temporariamente outros ascensores da cidade e criou uma comissão técnica independente para avaliar as condições de segurança dos equipamentos.

A investigação do GPIAAF levou ainda à demissão do então presidente da Carris, Pedro de Brito Bogas, após serem detetadas falhas na certificação do cabo que ligava as cabinas do elevador.