Flávio Bolsonaro anunciou o médico Cláudio Lottenberg como futuro ministro da Saúde, caso vença as eleições presidenciais brasileiras, uma escolha que procura conferir credibilidade técnica à sua candidatura, e tenta mostrar também algum distanciamento relativamente ao seu pai, de quem o oftalmologista foi um feroz crítico da forma como Jair Bolsonaro conduziu o combate à pandemia de covid-19 durante o seu mandato.

Nascido em São Paulo, em 1960, Lottenberg licenciou-se em Medicina pela então Escola Paulista de Medicina, onde concluiu também o mestrado e o doutoramento em Oftalmologia. Realizou formação complementar em urgências oftalmológicas em Nova Iorque e destacou-se como um dos pioneiros da cirurgia de correção da miopia por laser no Brasil.

A sua notoriedade resulta, contudo, sobretudo da atividade como gestor. Presidiu durante cerca de 15 anos a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, responsável por um dos hospitais privados mais prestigiados da América Latina, e atualmente lidera o respetivo Conselho Deliberativo. Durante o seu mandato, a instituição expandiu-se, criou uma faculdade de Medicina e reforçou as parcerias com o Sistema Único de Saúde, nomeadamente na área dos transplantes.

Lottenberg comandou igualmente a UnitedHealth Group Brasil, proprietária da operadora de saúde Amil, e preside ao Instituto Coalizão Saúde, estrutura que reúne representantes da cadeia produtiva do setor. Defende uma maior articulação entre os sistemas público e privado, a digitalização dos serviços, a gestão por resultados e a utilização da tecnologia para melhorar o acesso dos cidadãos aos cuidados médicos.

A experiência de Lottenberg na administração pública é, porém, reduzida. Em 2005, foi secretário municipal da Saúde de São Paulo, durante a gestão de José Serra, mas abandonou o cargo poucos meses depois, tendo ao longo dos anos, integrou ainda órgãos consultivos de governos de diferentes orientações políticas.

A indicação ganha particular significado devido às posições assumidas durante a pandemia. Lottenberg criticou a falta de uma orientação nacional coordenada, defendendo o distanciamento social, o uso de máscaras e a vacinação, numa linha oposta à adotada por Jair Bolsonaro.

Flávio apresentou-o durante uma entrevista ao Jornal Nacional, prometendo criar um 'SUS moderno', ao mesmo tempo que Lottenberg confirmou que aceitou o convite, declarando que “a saúde não é um campo político”.

A escolha de um crítico do pai permite ao candidato apresentar uma imagem mais moderada e comprometida com a ciência, mas deverá também reabrir o debate sobre a participação do setor privado na gestão do sistema público de saúde.