A empresa portuguesa afastada do negócio das fragatas não é propriamente uma desconhecida nos corredores da Defesa. A NT Group (NTG), que durante oito anos representou em Portugal o grupo italiano Fincantieri, fornece há décadas os três ramos das Forças Armadas e a GNR. E entre novembro de 2008 e julho de 2026, ou seja, ao longo 18 anos, a empresa celebrou 309 contratos com o Estado no valor de cerca de 20,7 milhões de euros, o que deixa bem claro que não é propriamente uma empresa de vão de escada, ou um vulgar comissionista.
À frente da NTG, que detém 3 setores – a NT Defence, na área da Defesa e Segurança, a NT Service & Parts, que cuida da Manutenção Naval e Industrial, e a NT Trading, que se ocupa da área do Comércio Internacional, está Alexandre Costa, um homem na casa dos 50 anos, que é gerente e dono de 95 por cento do capital da sociedade, cabendo os restantes cinco por cento à sua mulher, de origem polaca, com que é casado há alguns anos.
Alexandre Costa é alguém profundamente respeitado no meio, a começar por muitos dos chefes militares com quem se foi cruzando ao longo dos anos. Vários antigos chefes de Estado-Maior destacam-lhe uma característica: “Sabe manter as distâncias, isso é fundamental”, confidencia ao 24Horas um alto oficial da nossa Armada. Entre os seus amigos contam-se generais e almirantes — incluindo alguns que, enquanto estiveram em funções, nunca lhe compraram um cêntimo.



No meio militar, especialmente nos contratos da Defesa, o intermediário pode desempenhar um papel que vai muito além de aproximar comprador e vendedor. Funciona como ponte entre fabricantes internacionais e o Estado, conhece os circuitos institucionais, ajuda a traduzir exigências técnicas e operacionais e facilita negociações que, pela complexidade e dimensão financeira, podem prolongar-se durante anos. A intervenção de intermediários revela-se importante depois da assinatura do contrato. Segundo um oficial de alta patente ouvido pelo 24Horas “os equipamentos militares sofisticados exigem manutenção, formação, certificações, atualizações e apoio técnico durante décadas, e um parceiro com conhecimento do fabricante e das necessidades das Forças Armadas pode acompanhar todo esse ciclo de vida, resolver bloqueios e acelerar respostas”
Os registos do Portal da Contratação Pública dão a dimensão exata dos negócios públicos da NTG. Entre novembro de 2008 e julho de 2026, a empresa — que durante vários anos surge ainda com a designação Naval Trading — celebrou 309 contratos públicos, sobretudo com organismos da Defesa e das forças de segurança. Excluídos dois contratos com vários adjudicatários, os restantes somam cerca de 20,7 milhões de euros. O Exército concentra o maior valor, com cerca de 12,8 milhões, seguido da Marinha, com 6,5 milhões. Até a própria GNR adjudicou-lhe contratos no valor de cerca de 520 mil euros e a Força Aérea pouco mais de 76 mil.
Exército, o maior cliente
Se a Marinha é o cliente mais assíduo, é o Exército que marcha à frente nos valores. Entre novembro de 2008 e março de 2026, foram-lhe adjudicados cerca de 12,8 milhões de euros, dos quais 11,3 milhões resultam de quatro contratos publicados em agosto de 2020, no âmbito do mesmo procedimento para a aquisição de equipamentos do projeto Sistemas de Combate do Soldado, entre os quais monóculos intensificadores de imagem, apontadores e iluminadores, equipamentos de identificação e sistemas térmicos. Mais recentemente, o Exército adjudicou-lhe, entre outros fornecimentos, uma grua e uma carregadora de rodas por cerca de 528 mil euros e dois sistemas de purificação de água por 406 mil euros, ambos em 2024.
É, porém, na Marinha que a relação da NTG com o Estado navega há mais tempo e com maior regularidade. Entre julho de 2009 e julho de 2026, a empresa celebrou 240 contratos com diferentes estruturas da Marinha, num valor acumulado de cerca de 6,5 milhões de euros. Os fornecimentos vão de peças e sobressalentes para navios a motores fora de borda, equipamentos de proteção e material destinado aos submarinos. Entre os contratos de maior valor estão 650 mil euros, em 2020, para a substituição de ‘kits’ de fatos de escape livre dos submarinos, 401 mil euros, em 2021, para duas embarcações semirrígidas destinadas aos navios-patrulha da classe Tejo, e 292 mil euros, em 2020, para equipamento destinado ao submarino Arpão.
Isto no que se refere ao que habitualmente se designa como ‘prime contract’. Uma fonte da Armada confidenciou ao 24Horas, que a NTG intermediou alguns outros negócios, como por exemplo as munições Leonard para os NPO (Navios de Patrulha Oceânica): “É alguém muito conceituado neste setor, em que o ramo se habituou a confiar”, asseguro uma fonte da Armada ao nosso jornal.



A GNR também levou a NTG para o mar. Entre agosto de 2011 e abril de 2025, a Guarda celebrou com a empresa 12 contratos, no valor global de cerca de 520 mil euros. Uma parte significativa dos fornecimentos destinou-se à Unidade de Controlo Costeiro, nomeadamente peças para motores e hidrojatos das embarcações de vigilância e interceção. Entre os contratos de maior valor estão 74,8 mil euros, em 2018, para a manutenção de hidrojatos de lanchas da GNR, 74,3 mil euros, em 2021, para um sistema móvel de purificação de água, e 71,5 mil euros, também em 2021, para peças destinadas a embarcações da Unidade de Controlo Costeiro.
Voar baixinho
Com a Força Aérea, a NTG voa baixinho. O Portal da Contratação Pública regista apenas quatro contratos, no valor global de cerca de 76,5 mil euros. Três remontam a 2010 — para uma tenda e um sistema portátil de descontaminação e para uma máquina de lavar — e o mais recente, de setembro de 2024, foi de 11 mil euros para a aquisição de caixas de transporte destinadas a missões no estrangeiro.
No Estado-Maior-General das Forças Armadas, a NTG só aparece uma vez — mas logo para vender um sistema anti-drone. O contrato, celebrado em 2023, valeu cerca de 166 mil euros. Já com a Autoridade Marítima, os negócios são mais modestos: dois contratos, no total de cerca de 99 mil euros, para uma câmara de imagem térmica, em 2018, e tendas de campanha individuais, em 2026.
É neste percurso de quase duas décadas como fornecedora regular da Defesa que se inscreve a relação da NTG com a Fincantieri. Durante oito anos, a empresa portuguesa representou em Portugal o grupo italiano e acompanhou a sua aproximação ao mercado nacional. A ligação terminou em julho de 2026, curiosamente nas vésperas da assinatura dos contratos para a compra das três fragatas, num negócio de 3,9 mil milhões de euros que deixou a NTG de fora — afastamento, segundo fontes do 24 Horas, que terá tirado à empresa uma comissão de cerca de 90 milhões de euros, e, por conseguinte, mais de 20 milhões aos cofres da nossa Autoridade Tributária.

















