As três fragatas que Portugal comprou ao fabricante italiano Fincantieri estão ainda longe de sair do estaleiro, mas o negócio, no valor de 3,9 mil milhões de euros, já levanta sérias dúvidas. A começar pelo súbito e inesperado afastamento da empresa portuguesa NTG, intermediária da operação entre Portugal e o grupo vendedor, que, segundo as nossas fontes, perde cerca de 90 milhões de euros em comissões.
Não se conhecem, até agora, as razões que levaram ao afastamento da NTG, que há 9 anos consecutivos representava em Portugal a Fincantieri, nem de quem partiu a iniciativa – se do ministro Defesa, Nuno Melo, se dos italianos. O que sim se sabe é que a não-renovação do contrato entre a Fincantieri e a NTG ocorreu curiosamente nas vésperas da assinatura do contrato, e quando a empresa portuguesa estava a participar já há alguns meses nas negociações entre o Estado português e os italianos. Resta ainda a dúvida se os cerca de 90 milhões de euros que deixaram de ser pagos à empresa portuguesa foram abatidos ao valor final do negócio.
Fontes conhecedoras deste tipo de operações, contactadas pelo 24Horas, consideram muito improvável que uma comissão incluída nas contas do negócio reverta para o fornecedor. O afastamento da NTG não significa, por outras palavras, que os cerca de 90 milhões de euros tenham desaparecido do custo da operação. E se olharmos pelo lado da receita fiscal, são também menos 20 milhões de euros que entram nos cofres públicos...
O 24Horas tentou, sem sucesso, contactar a NTG e o seu sócio-gerente, Alexandre Costa. Tal como a própria Fincantieri que, através de Giorgia Barzuli, responsável pelo seu departamento de ‘Media Relations’, recusou responder às mais de 10 questões colocadas pelo nosso jornal, com o argumento de que “(...)por política interna, a Fincantieri não comenta assuntos relacionados às suas atividades comerciais”

A dúvida assume especial relevância atendendo à natureza da operação. A Fincantieri é controlada em cerca de 80 por cento pelo Estado italiano e a aquisição das três fragatas, formalizada a 20 de julho, foi feita através de um acordo entre governos, aliás chancelada durante a recente visita de Luís Montenegro a Itália. A NTG está no mercado há quase 30 anos, fornece os três ramos das Forças Armadas, sendo que o maior cliente tem sido o Exército.
Sabe-se quanto Portugal vai pagar pelos três navios. Conhece-se o construtor e, em termos gerais, o calendário previsto para a sua entrega. Mas não se sabe, afinal, que navios foram comprado por Portugal e se eles servem as necessidades da Marinha.
Segundo o que o 24Horas apurou, a designação oficial das fragatas – as FREMM EVO – está longe de esclarecer a dúvidas. Segundo uma fonte da Armada, estes tipos de navios podem integrar diferentes versões de sensores, sistemas de tiro e de combate. Mas ainda não se conhecem as capacidades efetivas dos três navios encomendados por Portugal. Também não se sabe se os 3,9 mil milhões de euros incluem helicópteros: “O helicóptero constitui uma peça essencial da fragata. Projeta as operações muito para além do alcance imediato do navio e aumenta consideravelmente as capacidades operacionais”, sublinha ao 24Horas uma fonte da Marinha.
O que comprou Portugal por 3,9 mil milhões de euros? O ministro da Defesa, Nuno Melo, lá saberá. Mas não diz. A ver se o negócio não navega em águas turvas, como aquele outro, o dos submarinos ao tempo que Paulo Portas era ministro da Defesa e que constituiu uma das maiores polémicas político-judiciais da democracia portuguesa...

















