Os gémeos Xiao Xiao e Lei Lei foram oficialmente devolvidos à China, o fim de uma era simbólica conhecida como a “diplomacia dos pandas”, um acordo histórico entre Pequim e Tóquio que, durante décadas, funcionou como ponte cultural e diplomática entre os dois países.
Os dois pandas chegaram à China na quarta-feira, dia 28, aterraram na cidade de Chengdu após o término do acordo bilateral de cooperação que regulava a sua permanência no Japão, confirmou a Associação Chinesa para a Conservação da Vida Selvagem. Posteriormente, foram transferidos para a base de Ya’an, do Centro Chinês de Conservação e Investigação do Panda Gigante, onde iniciaram o período de quarentena e observação sanitária.
Nascidos no Zoo de Ueno, em Tóquio, há quatro anos, Xiao Xiao e Lei Lei conquistaram rapidamente o coração dos japoneses. Para muitos, deixaram de ser apenas animais e passaram a fazer parte da memória afetiva do país.
Na manhã da despedida, centenas de pessoas reuniram-se no zoológico para os ver pela última vez. Vestiam casacos com estampas de pandas, chapéus temáticos e carregavam peluches, o que transformou o momento numa vigília silenciosa, marcada por muito emoção e despedidas chorosas.
“Venho vê-los desde que nasceram”, contou Nene Hashino, na casa dos 40 anos, abraçada a um ursinho de pelúcia. “É como se os meus próprios filhos estivessem a ir para um lugar muito distante. É triste.”
Durante a vigência do acordo, três pandas nasceram no Japão. Um deles, Xiang Xiang, regressou à China em fevereiro de 2023 por motivos de saúde. No caso de Xiao Xiao e Lei Lei, as autoridades chinesas confirmaram que veterinários foram enviados previamente ao Japão para preparar a transferência, e que tratadores dos dois países acompanharam os animais no mesmo voo.
A chamada “diplomacia dos pandas” é uma estratégia utilizada há décadas pela China, que mantém a propriedade legal de todos os pandas gigantes no mundo. Através de empréstimos a zoológicos estrangeiros, Pequim reforça laços diplomáticos, cooperação científica e influência cultural. No Japão, esta é a primeira vez desde 1972 que o país fica sem pandas gigantes, ano em que a chegada dos primeiros exemplares simbolizou a normalização das relações diplomáticas entre Tóquio e Pequim.
O regresso dos últimos pandas ocorre num momento de maior tensão política entre os dois países. A decisão surge após declarações polémicas da então primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, que sugeriu a possibilidade de uma intervenção militar em caso de ataque a Taiwan, essas afirmações provocaram uma forte reação do governo chinês e reacenderam desconfianças diplomáticas, dado que Pequim considera Taiwan parte do seu território.
Questionado sobre a possibilidade de novos pandas serem enviados para o Japão, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Guo Jiakun, recusou-se a dar uma resposta concreta, mas reconheceu o vínculo emocional entre o povo japonês e os pandas gigantes, e afirmou que a China “dá as boas-vindas ao público japonês para visitar o país e ver pandas”.
Enquanto Xiao Xiao e Lei Lei iniciam uma nova vida na China, o Japão enfrenta uma realidade inédita, pela primeira vez em 54 anos, não há pandas gigantes no país. Um símbolo de amizade diplomática desaparece e o mundo observa como essa ausência poderá influenciar a próxima fase da relação entre Pequim e Tóquio.















