Giorgia Meloni está prestes a tornar-se a primeira-ministra com mais tempo consecutivo no poder na história italiana. Numa extensa entrevista ao The New York Times, a governante explica como passou de militante marginal da direita pós-fascista a protagonista da política europeia, sem renegar as convicções que a levaram ao poder, mas adaptando-as às exigências institucionais.
“Sou uma pessoa que impõe regras a si própria”, afirma Meloni, garantindo que nunca diz aquilo em que não acredita. A primeira-ministra considera que os eleitores reconhecem essa autenticidade, mesmo quando discordam das suas posições. O jornal descreve como ‘melonização’ o processo que permitiu aos Irmãos de Itália, partido com raízes no Movimento Social Italiano, entrar na corrente dominante através de um conservadorismo pragmático.
Meloni rejeita ser classificada como fascista ou antifascista. Condena “todos os regimes totalitários e autoritários”, mas evita uma rutura absoluta com a história da direita italiana. Questionada sobre o fascismo, admite que, visto à luz do presente, “é fácil perceber que poderíamos ter visto as coisas de forma diferente”. Insiste, porém, que o seu partido não representa o regresso do fascismo.
A infância difícil, marcada pelo abandono do pai, ajudou a formar uma personalidade combativa. Criada no bairro popular romano da Garbatella, entrou aos 15 anos na juventude do Movimento Social Italiano. Diz que a levou até ali uma procura de pertença e a revolta provocada pelos assassínios dos magistrados antimáfia Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.
No Governo, Meloni surpreendeu quem previa uma colisão com Bruxelas. Manteve disciplina orçamental, reduziu o défice, apoiou a Ucrânia e preservou a posição de Itália na NATO. Recusa a ideia de uma “Italexit” e afirma que a unidade do Ocidente continua a ser fundamental. Internamente, destaca a estabilidade governativa, a evolução do emprego e a redução dos diferenciais da dívida, embora a oposição recorde os baixos salários, a precariedade e o elevado custo da energia.
Imigração: combate à entrada ilegal
A imigração permanece uma das suas bandeiras. O Governo emitiu centenas de milhares de vistos para trabalhadores necessários à economia, mas endureceu o combate às entradas ilegais, promoveu acordos com países africanos e tentou transferir requerentes de asilo para centros na Albânia. Apesar dos obstáculos judiciais, Meloni reivindica uma vitória política: a União Europeia passou a discutir centros de acolhimento em países terceiros.



Giorgia Meloni, prestes a a tornar-se a primeiro-ministro italiana mais tempo em funções, teve honras de primeira página na edição dominical do New York Times
A relação com Donald Trump revelou-se mais difícil do que esperava. “Acreditei que tudo seria mais fácil”, confessa, citando a convergência sobre imigração e cultura ‘woke’. As tarifas, os ataques à União Europeia e as posições norte-americanas sobre a Rússia criaram, porém, tensões. Meloni criticou Trump quando este atacou o Papa e ficou indignada depois de o Presidente norte-americano publicar uma fotografia em que aparecia vestido de pontífice.
Ao ocupar praticamente todo o espaço da direita italiana, Meloni limita o crescimento de concorrentes mais radicais dentro do país. Mas o seu sucesso produz um efeito mais vasto: demonstra que uma força com raízes pós-fascistas pode conquistar o poder, moderar a imagem e tornar-se aceite pelos parceiros ocidentais. Mais do que fechar o caminho à direita radical, Meloni poderá ter-lhe mostrado como chegar ao Governo.
















