As obras de renovação do Palácio de Buckingham permitiram descobrir objetos que permaneceram escondidos durante décadas na estrutura da residência oficial da monarquia britânica. Entre os achados estão umas botas de trabalho usadas, um cupão de apostas, um bilhete de um torneio de cartas de 1949 e documentos relacionados com uma receção oferecida pela rainha Isabel II.

A descoberta aconteceu no âmbito da intervenção de 370 milhões de libras, cerca de 432 milhões de euros, que tem vindo a ser realizada no palácio para modernizar as instalações elétricas, os sistemas de canalização e aquecimento e outras áreas da infraestrutura do edifício.

Os trabalhadores encontraram diversos objetos esquecidos debaixo do chão ou em diferentes zonas da residência. Um dos mais curiosos é um bilhete do Whist Drive, um encontro do clube social dos funcionários do Palácio de Buckingham, realizado a 14 de abril de 1949. O pequeno cartão, que custava seis pence, ficou incrustado num fragmento de material de construção.

Naquela altura, Isabel II ainda era princesa e tinha casado com o príncipe Philip menos de 18 meses antes. O atual rei Carlos III, então príncipe Carlos, tinha apenas cinco meses.

Entre os restantes objetos recuperados encontra-se ainda um cupão da lotaria Littlewoods de 1957, que não chegou a ser preenchido, assim como umas botas pretas de sola grossa bastante gastas.

Os restauradores encontraram também um maço vazio de cigarros Silk Cut, marca associada à rainha Camilla, e um fragmento de uma edição de 1889 do jornal The Standard, com parte da programação dos teatros do West End.

Outro dos achados permite perceber como eram organizadas as grandes cerimónias da família real. Trata-se de um documento datilografado com instruções detalhadas para a receção do Corpo Diplomático realizada em 1977, durante o Jubileu de Prata de Isabel II.

O documento indicava, entre outros pormenores, que a rainha e os restantes membros da família real deveriam circular pelo Salão de Baile no sentido horário. Os funcionários eram igualmente instruídos a incentivar os cerca de 350 convidados britânicos a conversar com os diplomatas presentes.

A receção exigia smoking e condecorações ou traje nacional, enquanto as mulheres da família real deveriam usar tiaras. O documento estabelecia ainda horários rigorosos para o serviço de bebidas e determinava que não seria permitido fumar em determinadas salas.

As descobertas incluem igualmente páginas do Daily Express de 1966 sobre os responsáveis pelo Grande Roubo ao Comboio, então detidos na Prisão de Durham. O jornal descrevia as condições dos reclusos e mostrava imagens do interior da prisão.

Entre os objetos encontrados estão ainda elementos de decoração e artigos do quotidiano, como azulejos cerâmicos da Minton, uma lareira com um desenho de meados do século XIX, uma antiga caneca de estanho, uma garrafa de água mineral Schweppes Still Malvern, uma caixa de junção em madeira e uma caixa antiga com seis cartões de Natal.

A intervenção no palácio permitiu também substituir uma parte significativa da antiga instalação elétrica. Os cabos revestidos com borracha vulcanizada indiana, conhecida como VIR, eram considerados um dos principais riscos de incêndio devido à deterioração provocada pelo passar dos anos.

Até ao momento, foram substituídos cerca de dois quilómetros deste tipo de cabos, uma distância equivalente ao comprimento de aproximadamente 40 piscinas olímpicas.

Os objetos recuperados acabam assim por funcionar como pequenas cápsulas do tempo, revelando aspetos da vida quotidiana de quem trabalhou no Palácio de Buckingham e dos acontecimentos realizados no interior da residência real ao longo de várias décadas.