Sérgio Figueiredo, de 60 anos, comunicou esta quarta-feira, dia 15, a sua saída da liderança executiva do Conta Lá, o canal de televisão por cabo dedicado ao jornalismo de proximidade, num momento em que os trabalhadores acumulam dois meses de salários em atraso e a empresa enfrenta uma crise de viabilidade financeira.

Numa carta enviada aos trabalhadores antes de um plenário realizado hoje, o jornalista anunciou que será convocada até final de julho uma assembleia-geral de acionistas para aprovar um plano de reestruturação e nomear uma nova Comissão de Gestão. A Comissão Executiva que liderava, composta por Sérgio Figueiredo, Maurício Ribeiro e Jorge Santos, cessará funções assim que a assembleia aprovar esse plano.

“Não é o fim do projeto, é simplesmente o meu fim nele”, escreveu Sérgio Figueiredo na missiva, assumindo parte da responsabilidade pelo que classifica como “uma hora de tremenda frustração”. O projeto conta atualmente com cerca de 100 trabalhadores, dos quais 40 são jornalistas.

No plenário de hoje, que reuniu dois terços do quadro de pessoal, os trabalhadores aprovaram um pedido de esclarecimento sobre a situação da empresa. Os funcionários estão quase há três meses sem receber salários e subsídios de férias: apenas cerca de 30 trabalhadores com vencimentos mais baixos receberam o salário de maio, mas sem subsídio de refeição.

No final de junho já tinha sido noticiado que o canal iria recorrer a lay-off para reduzir custos. No início de julho, o Sindicato dos Jornalistas considerou inaceitável a situação e exigiu uma posição clara da empresa.
Na carta de despedida, Sérgio Figueiredo apontou para investimentos que foram contratualizados mas nunca concretizados e contratos assinados que não foram cumpridos. Reconheceu também erros na formação de equipas, com “pessoas provavelmente certas” a ocuparem “cargos errados”, e lamentou fugas de informação internas que geraram uma crise de confiança junto de fornecedores, investidores e banca.

O Conta Lá foi autorizado pela ERC há cerca de um ano, com uma estrutura que previa quatro canais regionais (Sul, Centro, Norte e Rural ) e a criação de 205 postos de trabalho distribuídos por polos em todo o país, incluindo ilhas. O projeto ficou muito aquém dessas metas.

Sérgio Figueiredo disse esperar que a entrada de novos acionistas traga “novos líderes” e os meios necessários para relançar o canal, que descreveu como tendo “novos propósitos que ainda podem torná-lo maior do que foi sonhado”.