A atualização do Registo Nacional de Utentes (RNU) é vista como uma medida necessária, mas pode deixar alguns milhares de pessoas sem médico de família, alerta a Associação Portuguesa dos Médicos de Medicina Geral e Familiar (APMGF).

O problema surge sobretudo devido à nova regra que prevê a remoção de utentes sem contacto com o SNS há mais de cinco anos e aos registos administrativos incompletos.

Nuno Jacinto, presidente da APMGF, citado pela Lusa, reconhece que a limpeza dos ficheiros, eliminando duplicações, óbitos ou registos de pessoas que já não vivem em Portugal, é positiva. Contudo, sublinha que, num universo de cerca de 20 milhões de registos, mesmo uma pequena percentagem pode representar milhares de cidadãos afetados.

O processo, conduzido pela ACSS e pelos SPMS, decorre ao longo de julho. A grande preocupação, segundo Jacinto, é o impacto prático da remoção de utentes das listas dos médicos de família. Embora a ACSS garanta que estes cidadãos mantêm acesso ao SNS, o presidente da APMGF alerta que, na realidade, perder o lugar na lista significa perder prioridade de acesso: "Quando a vaga é ocupada por outro utente, o médico de família deixa de o aceitar", afirma.

O risco é maior para pessoas idosas, isoladas ou sem acesso às tecnologias, que podem não ter atualizado os seus dados a tempo. Se o registo ficar incompleto, o acesso aos cuidados primários pode ser dificultado.

A associação explica à Lusa que teme ainda um efeito perverso: utentes jovens e saudáveis podem começar a marcar consultas apenas para manter o médico de família, mesmo sem necessidade clínica, pressionando ainda mais o sistema.