O calor extremo matou mais de 50 mil pessoas nas cidades europeias entre junho e agosto, fazendo do verão de 2026 o mais mortífero de que há registo, segundo dois estudos publicados esta sexta-feira na revista científica Nature Health. Os investigadores modelaram as mortes por calor, por grupo etário, em 854 cidades europeias e chegaram a 50.391 óbitos, dos quais 32.619 se devem ao calor adicional provocado pela queima de carvão, petróleo e gás.
Comparando as temperaturas registadas com modelos de um mundo sem o aquecimento causado pelos gases com efeito de estufa, as alterações climáticas explicam 65% das mortes por calor deste verão. O número fica 71% acima do anterior verão mais mortífero, o de 2022, com 29.480 mortes, segundo os mesmos investigadores, do Imperial College de Londres e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.
Em Portugal, o estudo analisou 14 cidades e estimou 474 mortes associadas ao calor, 243 das quais atribuíveis às alterações climáticas. Lisboa regista o número mais elevado, com 201 óbitos (97 atribuíveis ao aquecimento global), seguida do Porto, com 98 (53). Seguem-se Coimbra, com 21, Braga, com 20, e Viseu, com 18 — embora Viseu apresente a taxa mais alta entre as cidades portuguesas, 170 mortes por milhão de habitantes. Ainda assim, a mortalidade estimada no país ficou abaixo da de vários países do Sul da Europa, o que os autores atribuem, em parte, à influência moderadora do Atlântico.
Itália foi o país mais atingido, com mais de 13 mil mortes, e Nápoles lidera a tabela das cidades, com 815 mortes por milhão. Em Espanha morreram 6.824 pessoas por causas ligadas ao calor, mais mil do que o estimado pelo sistema de monitorização espanhol, e 77% dessas mortes são atribuíveis às alterações climáticas. Os idosos continuam a ser os mais vulneráveis: mais de 22 mil das mortes estimadas ocorreram em pessoas com mais de 85 anos.
Clair Barnes, investigadora do Imperial College, afirmou que o verão de 2026 foi "provavelmente o pior de que há registo" em mortalidade por calor em grande parte da Europa. Pierre Masselot, epidemiologista da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, sublinhou que "não são só as regiões quentes que estão a sofrer".
Os autores admitem que os números pecam por defeito, porque não incluem a onda de calor mortal de maio e cobrem apenas as 854 cidades estudadas, que concentram cerca de 40% da população europeia.
Em Portugal, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge contabilizou, até 6 de agosto, 680 óbitos acima do esperado por todas as causas em três períodos de excesso de mortalidade.

















