A Optimum Communications, operadora norte-americana de cabo controlada por Patrick Drahi, está a ponderar avançar com um pedido de proteção contra credores ao abrigo do Chapter 11, a lei de falências dos Estados Unidos. Segundo a Bloomberg, que avançou a notícia ontem, dia 22, o objetivo é usar o processo para executar uma reestruturação da dívida que passará o controlo da empresa para os credores.

A empresa, que tem mais de 26 mil milhões de dólares de dívida, tem estado perto de fechar um acordo de reestruturação com os credores. Ainda não há decisão final sobre a forma de executar o plano, mas uma das hipóteses em cima da mesa é colocar a casa-mãe sob proteção judicial para repartir milhares de milhões de dólares em responsabilidades fiscais. Segundo a imprensa especializada, o pedido poderá surgir antes do final do ano.

A bolsa reagiu de imediato. As ações caíram cerca de 18,4% na sessão de quinta-feira, prolongando um colapso de vários dias que empurrou o título para território de “penny stock”: os investidores temem que os atuais acionistas fiquem com pouco ou nada.

O ponto central das negociações é a fatia que Drahi conseguirá manter. O empresário franco-israelita quereria conservar cerca de 3 mil milhões de dólares em capital na empresa reestruturada, enquanto os credores ofereciam perto de 500 milhões, seis vezes menos. As diferenças entre as partes estreitaram-se nas últimas semanas, mas os termos não foram divulgados.

O desfecho surge depois de meses de guerra aberta. Mais de 150 credores processaram Drahi e a Optimum por um alegado esquema para colocar ativos de milhares de milhões de dólares fora do alcance dos credores. Entre os autores da ação, interposta num tribunal do estado de Nova Iorque, estão a Apollo Global Management e a Oaktree Capital. Os credores acusam a empresa de estar insolvente há muito tempo, por culpa da estratégia a que chamam “Altice Way”: cortes agressivos de custos e endividamento elevado, com o valor de curto prazo a ser canalizado para Drahi e associados através de comissões de gestão, dividendos e prémios. A Optimum diz que as acusações não têm fundamento.

A pressão é também operacional. Cerca de 6 mil milhões de dólares da dívida vencem no próximo ano e a operadora perdeu cerca de metade dos clientes de televisão desde o pico, em 2015.

A Optimum é a antiga Altice USA, marca usada desde 2016, quando a Altice comprou a Cablevision por 17,7 mil milhões de dólares. A crise americana soma-se às dificuldades do resto do grupo. Em França, Drahi já cedeu 45% da Altice France aos credores, na reestruturação da dívida concluída no ano passado, e acordou em junho a venda da SFR à Bouygues, à Free e à Orange por 20,35 mil milhões de euros. O negócio aguarda aprovação dos reguladores e deverá ficar concluído no segundo semestre de 2027.

O empresário, que está de saída do mercado francês, tem vindo a explorar diferentes opções para o futuro do grupo internacional, que, através da Altice International, detém a Altice Portugal, dona da MEO.

Também em Portugal, Drahi trava com os credores uma batalha decalcada da americana. Nos Estados Unidos, a Optimum transferiu em junho o negócio da Cablevision para uma sociedade fora do alcance dos credores. Em Portugal, a manobra foi a mesma e aconteceu mais cedo: em dezembro do ano passado, Drahi retirou a Altice Portugal dos ativos dados como garantia aos credores da Altice International, a quem o grupo deve cerca de oito mil milhões de euros. A resposta também foi igual. Os credores enviaram em julho uma notificação formal de incumprimento e, no dia 13 deste mês, avançaram com um processo num tribunal de Nova Iorque, em que acusam o empresário de transferir ativos de forma fraudulenta.

A venda da Altice Portugal seria uma outra forma de procurar aligeirar a dívida colossal da empresa-mãe e, nesse sentido, as recentes notícias de que a dona da MEO procura conseguir a saída de 1.200 trabalhadores (uma das maiores reduções de pessoal dos últimos anos no setor das telecomunicações em Portugal), com a qual estima poupar 45 milhões de euros por ano, podem visar tornar a filial portuguesa mais atrativa para uma aquisição. O negócio esteve quase a concretizar-se há dois anos e frustrou-se por um desentendimento à volta do valor: a Saudi Telecom oferecia cerca de 8 mil milhões de euros, mas Drahi pretendia perto de 10 mil milhões.