O comentador político António Barreto traça um retrato particularmente severo da atuação do Governo, acusando o Executivo de Luís Montenegro de governar à vista, sem rumo político definido e condicionado pelos cálculos eleitorais.

No artigo “O guião está escrito”, publicado no Público, o sociólogo considera que a estratégia governamental assenta na negociação alternada com o Chega e o PS, procurando obter “maiorias de circunstância” e deixando que ambos reclamem o mérito de colaborar com o poder.

Barreto sustenta que o Governo avança com reformas difíceis apenas para recuar quando percebe a resistência da opinião pública. “Das poucas vezes que meteu mãos à obra em questões difíceis, fugiu mal percebeu que não ganhava”, escreve, apontando como exemplos as leis laborais e a reforma da Segurança Social.

O antigo ministro critica também a aposta em grandes projetos, despesa pública e promessas de longo prazo, bem como a multiplicação de assessores, secretários de Estado e estruturas de comunicação. O objetivo, argumenta, será criar uma ampla rede de dependências e concentrar no Orçamento medidas capazes de pressionar a oposição a viabilizá-lo.

Para António Barreto, o executivo procura ainda responsabilizar os partidos oposicionistas pela instabilidade, preparando uma eventual dissolução parlamentar e tentando chegar a uma maioria absoluta. “Este guião é o que nos governa”, afirma.

A crítica mais contundente dirige-se, porém, à ausência de uma orientação política reconhecível: “É difícil compreender a lógica e o espírito da ação deste Governo. Faltam-lhe ‘alma’ e ‘visão’”. Barreto acrescenta que não se percebe “nenhuma razão substantiva para tanta incompetência” e acusa o Executivo de preferir perder por causas atribuídas à oposição, em vez de assumir os custos das próprias decisões.

No balanço final, refere ainda os “estranhos acidentes” nos ministérios da Administração Interna, Educação, Trabalho, Defesa e Negócios Estrangeiros, e conclui que nenhum destes episódios foi verdadeiramente esclarecido nem contribuiu para aquele que, na sua opinião, é o objetivo central do Governo: apresentar-se como vítima de uma queda “injustamente derrubada”.