O Brasil está a acelerar uma aposta de grande dimensão no agronegócio angolano, procurando transformar uma relação tradicionalmente comercial numa presença produtiva no terreno. O sinal mais recente é o projeto Terra Lunda, que prevê a exploração inicial de 20 mil hectares na Lunda Norte para produção de grãos e poderá mobilizar cerca de 100 milhões de dólares de investimento, criando aproximadamente 300 empregos diretos.
O projeto ganhou novo impulso com a visita de dois dias a Angola do ministro brasileiro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, que chegou a Luanda acompanhado por uma missão empresarial e institucional. Foi neste quadro que Angola e Brasil assinaram um novo Memorando de Entendimento destinado a promover investimento produtivo agrícola, transferência de tecnologia e aplicação em Angola da experiência brasileira em agricultura tropical.
A ambição, porém, é muito superior aos 20 mil hectares iniciais. Angola já identificou cerca de 800 mil hectares suscetíveis de receber empresas brasileiras do agronegócio. O objetivo passa por desenvolver produção de cereais, soja e outras culturas, pecuária, genética animal, sementes, bioinsumos, mecanização, armazenamento e transformação agroindustrial. A Embrapa e outras instituições brasileiras deverão assumir também um papel relevante na transferência de conhecimento.
O financiamento será decisivo. O memorando prevê a análise do acesso dos projetos a linhas do BNDES, ao programa de financiamento às exportações do Banco do Brasil e a mecanismos brasileiros de seguro de crédito. Num modelo anteriormente apresentado pelas autoridades angolanas, o BNDES poderia representar cerca de 45% do financiamento, embora essa estrutura ainda não esteja formalmente fechada.
A estratégia ganha força adicional com a recente reabertura das linhas de financiamento do BNDES destinadas ao investimento, bens de capital e atividade exportadora brasileira. Não se trata de uma linha exclusivamente destinada a Angola, mas o mecanismo cria condições financeiras mais favoráveis para empresas brasileiras que procuram expandir-se internacionalmente.
O movimento revela uma aposta brasileira de longo prazo: levar para Angola capital, produtores, máquinas e tecnologia agrícola, aproveitando o enorme potencial de terras disponíveis. Para Angola, a equação é igualmente estratégica: produzir mais alimentos, reduzir importações, criar emprego e transformar a agricultura num verdadeiro motor de diversificação económica.

















