O ex-comandante da Força Aérea Brasileira, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, revelou, numa entrevista ao UOL, que a cúpula militar do Brasil chegou a temer uma ruptura democrática durante o Governo de Jair Bolsonaro.

Segundo o antigo comandante, a tensão política no Brasil atingiu níveis preocupantes em 2022, sobretudo devido ao confronto entre Bolsonaro, o Supremo Tribunal Federal (STF) e outras instituições brasileiras. Perante o agravamento da crise, militares procuraram estabelecer um diálogo com representantes do Supremo para tentar evitar uma escalada institucional.

Um dos episódios ocorreu em agosto daquele ano, antes das eleições presidenciais brasileiras. Baptista Júnior contou que houve um encontro com comandantes das Forças Armadas brasileiras, o então ministro do STF Dias Toffoli e o procurador-geral da República, Augusto Aras. A preocupação, segundo o brigadeiro, era impedir que a crise política evoluísse para uma ruptura democrática.

A situação agravou-se depois da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Bolsonaro foi derrotado nas urnas, mas, segundo o relato do antigo comandante, houve pressão para que as Forças Armadas interviessem e impedissem a transição de poder.

Baptista Júnior afirma ainda que o então comandante do Exército brasileiro, general Marco António Freire Gomes, chegou a admitir a possibilidade de prender Bolsonaro caso o antigo Presidente avançasse com medidas destinadas a impedir a posse de Lula. Os comandantes militares acabaram por não apoiar uma ruptura institucional.

As revelações fazem parte do livro “Eu Disse Não! – Uma Trincheira Antigolpista”, que Baptista Júnior deverá lançar em setembro. A obra apresenta a sua versão dos bastidores da crise política brasileira e das pressões exercidas sobre as Forças Armadas durante o período.

A entrevista ao UOL surge num momento em que o Brasil continua a discutir as tentativas de ruptura institucional que se seguiram às eleições de 2022 e culminaram nos ataques às sedes dos três Poderes, em Brasília, a 8 de janeiro de 2023. O relato de Baptista Júnior acrescenta a perspetiva de um dos militares que estava no topo da hierarquia brasileira naquele período.