A Estoril-Sol, concessionária dos Casinos Estoril e Lisboa, atravessa um dos períodos mais delicados da sua história. A necessidade de uma capitalização urgente de cerca de 35 milhões de euros, as obrigações financeiras para com o Estado, a crescente contestação laboral e os persistentes rumores sobre uma eventual venda de ativos do grupo, nomeadamente a área digital, desenham um cenário de profunda incerteza para uma empresa que, durante décadas, foi considerada uma referência de estabilidade e rentabilidade no setor do jogo em Portugal.

As contas mais recentes, aliás ‘chumbadas’ pela consultora Deloitte, revelam uma realidade preocupante. A empresa incumpre os rácios mínimos de capitais próprios exigidos pela Lei do Jogo, obrigando os acionistas a reforçar a curto-prazo os capitais em cerca de 35 milhões de euros para assegurar a continuidade das concessões, uma situação que está a gerar alguma controvérsia no quadro acionário da Estoril-Sol, mais concretamente junto da Sociedade Figueira-Praia, liderada por Jorge Armindo, e que detém cerca de 33 por cento da sociedade, que não esconde a sua preocupação com a situação que a empresa dos herdeiros de Stanley Ho.

Stanley Ho, o empresário de origem macaense Stanley Ho que juntamente com Mário Assis Ferreira, protagonizou os ‘anos de ouro’ do Casino Estoril

Ao mesmo tempo, a Estoril-Sol, que hoje tem à frente Pansy Ho, a filha mais velha daquele que ficou conhecido como ‘o rei do jogo’, continua envolvida num diferendo com o Estado relacionado com contrapartidas financeiras que ascendem a várias dezenas de milhões de euros, enquanto procura implementar medidas de reestruturação destinadas a reduzir custos e recuperar o equilíbrio financeiro.

A tensão faz-se igualmente sentir entre os trabalhadores. Para o próximo dia  6 de agosto está marcada uma concentração junto ao Casino Estoril, convocada pelas estruturas sindicais, que denunciam a falta de informação sobre o futuro da empresa, manifestam preocupação com a salvaguarda dos postos de trabalho e criticam a ausência de uma estratégia clara para ultrapassar a atual crise.

Nos bastidores do setor, multiplicam-se também as especulações sobre uma eventual alienação dos casinos do Estoril e de Lisboa, cenário que, embora nunca tenha sido confirmado pela administração, ganha força perante o agravamento da situação financeira e a necessidade de reforçar a estrutura de capital.

A atual realidade contrasta com o longo período em que a Estoril-Sol foi liderada por Mário Assis Ferreira. Durante décadas, a empresa consolidou uma posição dominante no mercado nacional, investiu na modernização das suas unidades, diversificou a oferta e apresentou resultados que a colocavam entre as concessionárias mais sólidas do setor. A gestão era frequentemente apontada como um caso de sucesso empresarial, caracterizada por uma estratégia consistente, capacidade de investimento e estabilidade financeira, além de uma clara aposta nas áreas da cultura e do espetáculo.

A saída de Mário Assis Ferreira da gestão executiva, há cerca de doze anos, continua, aliás, a ser encarada por muitos protagonistas do setor como um momento de viragem. Tanto entre concorrentes como entre trabalhadores é frequente ouvir-se que esse terá sido "o princípio do fim" de um modelo de gestão que durante largos anos garantiu crescimento sustentado, prestígio institucional e uma relação de confiança com colaboradores, clientes e parceiros.