Numa 'jogada' por muitos tida como "eticamente reprovável", Patrick Drahi , o dono da Altice, blinda os ativos do grupo nos EUA e enceta uma 'guerra' com os credores norte-americanos, cuja dívida ascende a mais de 25 mil milhões de dólares dos quais 6 mil milhões a curto-prazo, e cujo vencimento ocorre já em 2027.
O empresário franco-israelita transferiu os principais ativos de televisão por cabo e internet da operadora para uma nova entidade jurídica, colocando-os fora do alcance imediato dos credores, entre os quais figuram alguns dos maiores gestores de ativos de Wall Street, como Apollo, Ares, Oaktree e BlackRock.
A manobra da Optimum (antiga Altice USA) envolve ativos da antiga Cablevision, adquirida em 2016 à família Dolan, presentes em estados como Nova Iorque, Connecticut, Nova Jérsia e Pensilvânia, e que geram cerca de dois mil milhões de dólares anuais de fluxo de caixa. Enquanto esses ativos transitam para uma estrutura denominada “unrestricted holdco”, a empresa original continua pressionada por aproximadamente seis mil milhões de dólares de dívida à curto-prazo.
Para financiar a operação, a nova entidade assegurou três mil milhões de dólares em dívida sénior junto do JPMorgan Chase e mais 300 milhões em capital preferencial proveniente de investidores externos ao atual grupo de credores. Parte destes recursos servirá para uma oferta de recompra de cerca de um terço das ações da Optimum a 2,50 dólares por título — valor quase quatro vezes superior à cotação registada no final da semana passada.
Embora a operação não seja inédita nos mercados financeiros, está longe de ser consensual. Em Wall Street, este tipo de estratégia, conhecida como 'liability management', é vista como uma ferramenta agressiva de reestruturação destinada a proteger ativos estratégicos e reforçar o poder negocial das empresas altamente endividadas.
Na prática, Drahi procura retirar do alcance dos credores os ativos mais valiosos do grupo, pressionando-os a aceitar uma conversão de dívida em capital e um acordo abaixo do valor nominal da dívida, o que levanta dúvidas éticas e reputacionais. É que, ao blindar os ativos mais rentáveis enquanto a estrutura original permanece carregada de dívida, a Optimum arrisca aprofundar a perceção de que procura preservar acionistas e gestores à custa das garantias implícitas oferecidas aos financiadores.
Mais do que uma simples engenharia financeira, a jogada de Drahi pode revelar uma mudança de fase: da negociação cooperativa para a demonstração de força. Resta saber se os tribunais e os mercados considerarão esta blindagem um exercício legítimo de defesa empresarial — ou apenas mais um capítulo da crescente tensão entre grandes grupos altamente alavancados e os seus credores.

















